terça-feira, 17 de maio de 2016

Em Prova: Maias Branco 2014


15,5/20. Branco do Dão, da Quinta das Maias / Roques, produtor emblemático da região, com a particularidade de ser um vinho 100% biológico. Não sei se é por ser biológico ou não, mas foge claramente à regra dos vinhos brancos, trabalhados com as leveduras, para lhes dar aquela tropicalidade, tantas vezes para consumo imediato, mas que acaba por eventualmente cansar. Este Maias constituído por Encruzado e Malvasia Fina é imensamente fresco e contempla um lado vegetal e até mentolado que surpreende. Um bom companheiro com versatilidade para o verão. PVP: 5,5€. Disponibilidade: Grandes Superfícies.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Em Prova: Ex-Libris Super Reserva Espumante Bruto 2008



16,5/20. Confesso que não conhecia este espumante produzido na Bairrada, claro está.  Trata-se de um super reserva, o que induz desde logo ter obrigatoriamente passado uns anos em cave antes do engarrafamento final. Muito bem conseguido, de cor palha, impressiona pela enorme frescura e complexidade aromárica. Encontramos notas de frutos secos e algum biscoito, ou mesmo notas ligeiramente meladas. Na boca, a mousse é fina, fruto de uma bolha em conformidade. Muito fresco e claramente "champanhês". Uma delícia.. PVP: 12,5€. Disponibilidade: Garrafeiras Seleccionadas.

sábado, 14 de maio de 2016

Opinião: Aprendendo e Partilhando - Colheitas Tardias


Escolhi recentemente um vinho destes para acompanhar uma sobremesa num jantar, por mim organizado, com prova cega. Apesar de saber da curiosa falta de hábito em Angola de acompanhar as sobremesas com vinho, necessariamente doce ao contrário do que por vezes se ouve, não deixei de ficar admirado por apenas duas ou três pessoas, uma delas não conta, era a minha mulher, terem detetado tratar-se de um Late Harvest ou, se quisermos, em português, Colheita Tardia. Eu disse curioso, mas na verdade é surpreendente sabendo o quanto as coisas doces são por aqui apreciadas, aliás não será por acaso só por aqui ter ouvido a expressão “está doce” querendo dizer que o momento está agradável.

Curiosas e bem ajustadas são também as palavras do crítico e sommelier australiano Matt Skinner, "os vinhos doces são um pouco como bateristas: tecnicamente brilhantes, mas muito frequentemente ofuscados pelo resto da banda".

Existem muitas formas de fazer estes vinhos, desde a sua forma mais simples, que é o de deixar passar o seu momento habitual de colher, daí o nome destes vinhos, e esperar que as uvas fiquem um bocado mais desidratadas e próximas daquilo que é uma uva passa. Estas uvas têm muito menos sumo e por isso a quantidade de açúcar em cada litro é muito superior ao normal e dariam origem, se todo o açúcar fosse transformado em álcool, a vinhos com graduações altíssimas. Não é isso que fazem e é por isso que estes vinhos são sempre doces. Quando, durante o processo de fermentação, o vinho atinge uma graduação entre os 8 e os 12 por cento de álcool, ela é usualmente interrompida. Poderá por vezes ter menos e outras vezes mais, mas não é muito usual. Não são por isso vinhos muito alcoólicos, como é o caso dos fortificados, sendo também por isso vinhos menos impactantes.

Existem outros vinhos que poderiam ser também considerados como Colheitas Tardias, de que falarei em outras crónicas, nesta irei apenas falar dos talvez mais interessantes vinhos deste género, os chamados vinhos “botrytizados”, uma palavra inventada para distinguir os vinhos afetados pelo fungo Botrytis Cinerea dos outros. É que este fungo, causador da podridão cinzenta em muitos vegetais e nas uvas também, se as atacar antes do tempo, pode em determinadas alturas dar origem à “Podridão Nobre”. Neste caso e apesar do aspeto deplorável das uvas, o resultado é um vinho único que pode atingir níveis de perfeição inalcançável para os colheitas tardias sem podridão nobre. A descoberta deste modo de fazer vinho é atribuída aos monges beneditinos que em 1755 habitavam o Schloss Johannisberg. O emissário que tinha ido obter a permissão para colher as uvas atrasou-se várias semanas. Quando voltou as uvas estavam quase todas podres. Os monges que já tinham ouvido falar, eventualmente experimentado, vinhos onde algumas uvas estavam afetadas pela podridão nobre resolveram ainda assim avançar para a produção do vinho. Foi assim feito oficialmente pela primeira vez um spätlese, significando colheita tardia e tornando-se uma das categorias nos vinhos de qualidade, dando origem a uma verdadeira revolução na forma como se faz vinho na Alemanha. Este processo foi sendo melhorado e exportado para outras regiões europeias com destaque para a França, Hungria e Áustria. Na Alemanha e já agora na Áustria mas com menos notoriedade, o vinho mais conceituado tem o sugestivo nome de Trockenbeerenauslese e podendo uma singela garrafinha de 375 ml custar algumas centenas de euros.

França é o país que continua a garantir a produção do que melhor se faz neste domínio, com destaque para a região de Sauternes, mas também para a região do Loire onde se fazem vinhos doces com a casta Chenin Blanc absolutamente deliciosos e com a vantagem de serem mais baratos por serem bem menos conhecidos. Mas foquemo-nos em Sauternes, uma sub-região de Bordéus, que tem como ícone o famoso Château d’Yquem e como guardas de elite nomes como Château Riussec, Château Climens, Château Coutet, Château La Tour-Blanche ou Château Doysi-Dubroca. Estes produtores têm usualmente o cuidado de apenas recolher os cachos das uvas completamente afetados pelo fungo. Se necessário mais de meia dúzia de passagens na vinha são efetuadas para o garantir. A casta Semillon, conhecida no Douro por Boal, é a mais utilizada na região, com mais de 80% dos vinhedos, até por ser a mais propensa a ser atacada pelo fungo, graças à sua fina pele, mas também a Sauvignon Blanc e a Muscadelle têm o seu papel importante no resultado final. Os melhores vinhos têm uma incrível capacidade de evolução em garrafa, ficando cada vez mais concentrados em aromas, sabor e açúcar. A sua elevada acidez impede estes vinhos de se tornarem enjoativos. 2001 foi o ano recente de melhor qualidade que tive a oportunidade de provar.

A Hungria tem em Tokaji, uma das mais antigas regiões do mundo, a produção de um dos melhores vinhos deste género designados por Tokaji Aszú, com o número de puttonyos a indicar o grau de doçura que o vinho terá, sendo que 3 é o mínimo e 6 o máximo. Antigamente, a cada 136 litros de vinho seco, eram adicionados baldes de 20 quilogramas, os puttonyos, de uvas afetadas pela podridão nobre. Atualmente existem intervalos bem definidos que cada classificação tem de respeitar. Os 3 Puttonyos, por exemplo têm de ter entre 60 e 90 gr/l de açúcar. Já o 6 Puttonyos terá de ter entre 150 e 180 gr/l de açúcar. Acima destes, em termos de açúcar residual e a ultrapassar os 200 gr/l, estão os Aszú Essencia, produzidos exclusivamente com uvas podres. As principais castas utilizadas são autóctones e têm os sugestivos nomes de Furmint e Hárslevelü. A minha experiência leva-me a preferir muitas vezes os 5 em detrimento dos mais doces e mais caros vinhos desta região, sendo que o número de anos que o vinho tem seja igualmente determinante, pois tal como com os vinhos de Suaternes, também estes vinhos possuem a sempre boa característica de evoluírem muito bem em garrafa.

Hildérico Coutinho (Escanção / Sommelier)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Em Prova: Grandjó Late Harvest 2008


17/20. Existem várias formas de obter colheitas tardias (late harvest), sendo que neste caso particular, obtém-se através da acção do fungo natural conhecido por Botrytis Cinerea, que "ataca" as uvas, através da "podridão nobre". Na Quinta do Casal da Granja, em Alijó, da Real Companhia Velha, algumas parcelas beneficiam de um micro-clima conducentes a um nevoeiro matinal seguido de tardes quentes e húmidas que apresentam as condições ideais para o desenvolvimento do fungo Botrytis Cinerea, contribuindo assim para a criação do Grandjó Late Harvest, Trata-se de um vinho doce e untuoso, mas com uma acidez notável que nunca o torna cansativo. Ora este é o ponto chave para um grande Colheita Tardia, o equilibrio - Doce, mas sem nunca ser cansativo. Em prova temos o 2008, proveniente da podridão nobre afetando a casta branca semillon, delicioso, com notas de citrinos confitados, mel, alguma baunilha do contacto com a barrica, fresco e gordo , num perfeito equilíbrio entre doçura e acidez, terminando longo e viciante. Não se nota nada que é de 2008... Deve sser servido entre 8º a 10º e em doses comedidas (acompanhando sobremesas pouco doces), pois para além da sua forte concentração glicémica, vem numa garrafinha de 375ml, a um PVP de cerca de 18€... Para ficarem com um "docinho" nexta sexta-feira 13... Disponibilidade: Grandes Superfícies.

Sérgio Lopes

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Radar do Vinho: Cooperativa Agrícola do Távora

A cooperativa agrícola do Távora situa-se em Moimenta da Beira, agregando produtores da região. Produzem para além de vinho e espumante, maçãs, mais propriamente a tão famosa maçã "Bravo de esmolfe". A cooperativa está pois localizada na Região Demarcada do "Távora - Varosa", inserida entre a região do Douro e do Dão. Trata-se de uma região pequena em dimensão mas de onde saem sobretudo espumantes de grande qualidade, não só produzidos pela cooperativa sobre a marca "Terras do Demo", bem como por exemplo a famosíssima Murganheira, também proveniente daquela região.

A cooperativa produz diversas referências de vinhos brancos, tintos e espumantes:



O Malhadinhas. O Branco,  fresco e de piscina, sobretudo focado para momentos de descontracção. Leve e fácil, mas bastante agradável. Tinto também simples, de entrada, equilibardo e directo. Prefiro o branco. Ambos têm um PVP de arromba ~2,5€.



Terras do Demo. O Branco Seco, mais complexo e profundo que o Malhadinhas. Com passagem por madeira para lhe dar esse extra de complexidade. Focado no lado floral da Malvasia, com toque abaunilhado. Um pouco mais de volume de boca, seria o ideal. No entanto, trata-se de uma excelente relação qualidade-preço, tendo um pendor mais gastronómico que o Malhadinhas. PVP de arromba ~3,75€. O Reserva Tinto, tal como o Malhadinhas feito de uvas provenientes de associados das regiões circundantes à Távora Varosa, mais propriamente do Douro... uma vez que não se consegue obter um vinho tão equilibrado se tal não for efectuado. Trata-se de um vinho complexo qb, bom para o preço que representa, mas sem deslumbrar. PVP  ~3,75€.





Espumantes Terras do Demo. Todos eles brutos. Terras do Demo Rosé. 100% produzido de Touriga Nacional. também denominado "olho de perdiz" tal a sua coloração ténue, rosada. Um espumante rosé delicado e floral, fresco, e equilibrado. Terras do Demo Branco. 100% produzido de Malvasia Fina. Cor citrina. Bolha fina e delicada. Muito fresco, com foco no lado floral e frutado da casta. Elegante e crocante, tem um final longo e persistente. Muito bem conseguido. Terras do Demo Tinto. 100% Touriga Franca. Costuma-se dizer que os espumantes tintos não são para ser apreciados por qualquer um. Precisam de comida a acompanhar e normalmente são mais agrestes. Os clássicos espumantes tintos da Bairrada da casta Baga são disso um exemplo. Mas não é este o caso. Não senti agressividade de boca. Apenas um perfil mais vínico, num conjunto estranho, é verdade, mas que fiquei curioso em provar melhor a solo, com uma comida a preceito a acompanhar. PVP dos 3 espumantes ~7,5€

Há ainda um espumante Terras do Demo Reserva Bruto, denominado "Pata de Lebre" que tem aquela complexidade dos espumantes que sofrem estágio com madeira e afins, muito bom de aromas, cor e boca quase perfeita, num nível de preço onde já existem por ventura outras referências tão ou mais interessantes.. PVP ~14.5€

Claramente um produtor de enorme qualidade e consistência ano após ano. Eu sou ávido consumidor dos espumantes Rosé e Branco. Simplesmente deliciosos, a preço acertado e sempre com o mesmo perfil. Para beber com prazer.



Sérgio Lopes

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Concurso Mundial de Bruxelas 2016: Vinhos Portugueses em Alta!

Já são conhecidos os resultados do Concurso Mundial de Bruxelas deste ano. No seguimento do furor que os nossos vinhos têm alcançado além fronteiras, Portugal alcançou um excelente resultado, naqueles que são considerados os óscares do vinho, arrecadando 357 medalhas, das quais 16 Grande Medalha de Ouro, 114 Medalha de Ouro e 227 Medalha de Prata. Muitos parabéns! Aqui fica a lista dos 16 grande medalha de ouro:

GRANDE MEDALHA DE OURO


Fortificados
BARROS PORTO COLHEITA 1974 | SOGEVINUS FINE WINES
CÁLEM PORTO COLHEITA 1961 | SOGEVINUS FINE WINES
KOPKE PORTO COLHEITA 1941 | SOGEVINUS FINE WINES
KOPKE PORTO COLHEITA 1957 | SOGEVINUS FINE WINES
KOPKE PORTO COLHEITA 1966 | SOGEVINUS FINE WINES
KOPKE PORTO COLHEITA 1978 | SOGEVINUS FINE WINES
KOPKE PORTO COLHEITA 1984 | SOGEVINUS FINE WINES
D'OLIVEIRAS MADEIRA WINES 1973 | PEREIRA D'OLIVEIRA VINHOS, LDA
D'OLIVEIRAS MADEIRA WINES 1981 | PEREIRA D'OLIVEIRA VINHOS, LDA

Mesa
BRIDÃO ALICANTE BOUSCHET 2013 | ADEGA COOP. DO CARTAXO, CRL (TEJO)
LUPUCINOS RESERVA 2013 | QUINTA DE LUBAZIM, LDA (DOURO)
QUINTA DA GAIVOSA TINTO 2011 | DOMINGOS ALVES DE SOUSA, LDA (DOURO)
QUINTA DO FRANCÊS 2013 | PATRICK AGOSTINI, LDA (ALGARVE)
QUINTA DOS MURÇAS RESERVA 2011 | ESPORÃO, SA (ALENTEJO)
VIRGO 2015 | SOC. AGR. HERDADE TORRE DO FRADE (ALENTEJO)
PAI CHÃO GRANDE RESERVA 2011 | ADEGA MAYOR, SA (ALENTEJO)

A lista dos restantes vinhos premiados pode ser consultada AQUI.

Sérgio Lopes

terça-feira, 10 de maio de 2016

Fora do Baralho: Luis Pato Fernão Pires "Tinto" 2012

Há uma ideia que recentemente tem vindo a ganhar múltiplos formatos, de recuperar a tradição antiga de vinificar uvas brancas e tintas ao mesmo tempo; se em tempos mais remotos isto acontecia porque as vinhas velhas continham em si percentagens – nem sempre aleatórias, julgo eu – de múltiplas castas misturadas, hoje em dia isso já é feito de uma forma mais definida, buscando no entanto um resultado que nos “devolva” esses vinhos de outrora, menos alcoólicos que o habitual, para consumo no ano, dia-a-dia e na maioria dos casos a qualquer hora… bons companheiros de todo o tipo de petisco, estes vinhos saem da actual norma com que habitualmente os classificamos, ao ponto de haver casos em que a própria região não os reconhece como sendo “seus”…

Depois de provarmos o Palhete 2005 do Gravato, o Pardusco Private Selection 2015 do Anselmo Mendes ou o Uivo Renegado 2015 do Tiago Sampaio ficamos com a ideia de que regra geral a uma base de uvas tintas é adicionada uma pequena percentagem de uvas brancas, conferindo-lhe estas maior frescura e uma acidez suplementar… pois com este Fernão Pires (o nome celebra o nascimento do seu neto Fernão) Luís Pato faz exactamente o oposto e a uma percentagem de 94% de uvas desta casta branca (que ganha o nome de Maria Gomes na Bairrada, de onde provém) junta 6% da “sua” Baga, numa fermentação que ocorre em conjunto por um período de 10 dias.

O suficiente para a Baga dominar o restante lote e aparecer tanto no nariz como na boca: contem com algumas notas típicas desta casta logo no aroma, como o barro molhado e até algum chocolate, e depois alguma rusticidade na boca, como de uma Baga até com mais idade (este teve edição única de 2012), ganhando uma acidez que casa muito bem com estes “traços de personalidade” tão evidentes desta casta. Para se beber ligeiramente fresco, claro, para melhor se apreciar um vinho que não chega aos 12% de álcool… não será fácil de o encontrar, mas até isso aguçará a curiosidade para quem não estará familiarizado com este “novo velho” estilo. PVP: 10€; Disponibilidade: Portus Wine Trip.

Marco Lourenço