segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Em Prova: Vale dos Ares Alvarinho Limited Edition 2016

Versão com passagem por madeira do Alvarinho Vale dos Ares de Miguel Queimado. 

Limited Edition (LE) pois foram feitas apenas 600 garrafas deste vinho. A edição de 2016 do LE, à semelhança da colheita do seu Alvarinho mais recente no mercado (2017), provado aqui, é para mim também a melhor edição até à data.

O LE sempre foi um vinho que finaliza a fermentação em barrica onde depois permanece mais ou menos 6 meses. E este ano, a madeira aparece superiormente integrada, aportando ao vinho apenas aquilo que interessa - uma outra dimensão, respeitando totalmente a casta. 

Começou no copo muito tímido e fechado, embora muito complexo - sempre. Passou pelo lado citrino, pelo herbáceo, pelo salino, terminando cheio de maresia. Fresco, com acidez acutilante, bom volume de boca e final muito longo. Refrescante, mineral e muito prazeroso, contudo a precisar do precioso tempo de garrafa para se mostrar na sua plenitude. É dar-lhe mais 3 ou 4 anos... Ou então, apreciar desde já, pois está um belíssimo vinho. PVP: 14,90€. Disponibilidade: Garrafeiras.

Sérgio Lopes

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Em Prova: Fazenda Prádio Tinto 2016

A adega Fazenda Prádio localiza-se na Ribeira Sacra, na vila abandonada de O Pacio de Carracedo, A Peroxa. São 5 hectares de vinhas, das variedades Merenzao, Brancellao, Caiño Longo, Espadeiro, Sousón, Mencía, Loureira e Dona Branca,  a 500 metros de altitude, em solo granítico e Xistoso. A produção é biodinâmica. Também é possivel usufruir de Turismo Rural na propriedade.

O Fazenda Prádio é 100% produzido da casta Mencia (Jaen) enxertado nas videiras de castas autóctones da região. 

12 graus. Focado na fruta fresca de qualidade, com grande salinidade, corpo médio. Muito fresco. Pouco extraído. Só apetece beber de tão fácil que é, sem cansar. Tudo características que aprecio num tinto. So lhe falta um pouco mais de profundidade, mas a garrafa desaparece num instante...! 

Um Mencia fora do Bierzo, mas que mostra todas as qualidades da casta e que se bebe com grande agrado.

PVP: 12€. Disponibilidade: Delicatum / Online.

Sérgio Lopes

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Fora do Baralho: Czar

Se há vinho totalmente distinto e peculiar é o vinho Czar da Ilha do Pico - Açores. Após a revolução Russa em 1917, foi encontrado vinho licoroso da ilha do Pico nas caves do palácio do último Czar, Nicolau II. Este vinho era embarcado em barricas na ilha do Pico e enviado propositadamente pelos Czares para os seus banquetes reais. 

Chegou a constar de receitas médicas como cura para certos males e até Tolstoi o menciona no seu livro “Guerra e Paz”. Daí se ter considerado que o nome mais apropriado para este vinho seria “Czar”. As vinhas onde é produzido o CZAR, são centenárias e localizam-se na zona dos lajidos da Criação Velha, da ilha do Pico.

Por se tratar de um vinho totalmente natural, sem adição de qualquer tipo de álcool, açúcar ou leveduras, a sua composição varia de acordo com o grau de maturação e as condições climatéricas incertas de cada ano, podendo aparecer como seco, meio seco, meio doce ou doce. É um vinho que naturalmente atinge 18% de graduação, e às vezes mais. 

Essa virtude, deve-se às características peculiares das uvas de que é feito, ao tipo de solo vulcânico e à vindima tardia, ajudando na sobre maturação das uvas. Em alguns anos simplesmente não aparece, por não atingir a qualidade necessária para ser chamado Czar. 


As castas utilizadas são o verdelho, o arinto dos Açores e o terrantez. Nos anos em que saiu Czar, até 2008 eram mencionadas as castas (nem sempre todas faziam parte do lote), sendo que a partir de 2008, passa a designar-se "superior". O 2011 é "private collection". Fizemos uma prova vertical dos vinhos Czar no evento Enóphilo no Porto (2009, 2008, 2006, 2003, 2002, 2000), podendo comprovar que se tratam de vinhos muito secos (apesar do açúcar presente), devido à elevada acidez e que aguentam muito bem a passagem do tempo. Reforço que não são vinhos aguardentados como os Porto ou Madeira, por exemplo, mas sim fortificados mais próximos de um colheita tardia. A colheita mais recente no mercado é a de 2011 e pode ser encontrada nas melhores garrafeiras, com um PVP a rondar os 50€. Está muitíssimo equilibrada, entre doçura e acidez, cheia de nervo, muito iodo e salinidade, sendo um vinho "perigoso" a beber e muito versátil. Czar - uma verdadeira curiosidade no mundo vínico. Disponibilidade: Garrafeiras

Sérgio Lopes

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Em Prova: Os brancos de Almeida Garrett

O título deste post quase que nos leva a pensar que vamos ler algo sobre os vinhos que o poeta Almeida Garrett bebia. Mas não é. Embora o nome deste projeto deva a sua designação à descendêndia da familia relativamente ao famoso poeta. 

Encontram-se situados em Tortosendo, Covilhã e são pioneiros na aposta em Chardonnay, com vinhas com mais de 35 anos. 

E é sobre os dois brancos que saem da casa. ambos feitos de chardonnay que falo hoje. Dois brancos muito interessantes, provenientes da região da Beira Interior. 

O Almeida Garrett Chardonnay 2017 (7,5€) é um vinho muito fresco, mineral, focado na fruta e sem  os excessos a que muitas vezes esta casta em Portugal é sujeita. Muito equilibrado e apetecível, com apenas 12,5º de alcool. Não passa por madeira. Será curioso ver a sua evolução em garrafa. Um vinho a ter cá por casa seguramente. Já o Almeida Garret Reserva Branco 2013 (15€), também feito 100% de Chardonnay, fermenta em barricas usadas e estagia com battonage regular por 10 meses o que lhe confere uma complexidde acrescida. O resultado é um vinho gordo e untuoso, com notas amanteigadas, mas com muito equilibrio. É fresco, com bom volume e dá muito prazer à mesa. Elevou um bacalhau a lagareiro a um outro nivel e foi de agrado geral a todos que estavam na mesa, com diversos perfis enofilos, o que ainda o valoriza mais. Num grande momento de prova, nem se notando os 5 anos de garrafa. Um belo vinho! Disponibilidade: Online

Sérgio Lopes

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Radar do Vinho: Pedro Milanos

Pedro Milanos é o anagrama de Armindo Lopes, o autor do poema que está no contra rótulo dos vinhos, um apaixonado pela região, que faleceu antes desta ser considerada Património da Humanidade.

Tudo começou com o enólogo Luis Soares Duarte ( Gouvyas ) que trabalhava na propriedade e fazia o seu vinho (cerca de 3000 garrafas). Mais tarde começou a produzir outras 3000 garrafas a pedido da familia. As uvas sempre foram entregues a uma empresa de Vinho do Porto e as 3000 garrafas restantes eram consumidas entre familia e amigos.

Entretanto Vasco Lopes, neto de Armindo foi crescendo e vivendo rodeado de vinha e vinho, acabando por enveredar por esse caminho. Foi ao Porto fazer os pré-requisitos para poder entrar na faculdade de desporto e apesar de ter sido até o 1º classificado na natação ( fazia vela desde os 7 anos ), entrou em... enologia.

Acabado o curso, Celso Pereira (Vértice), amigo da família,  deu uma "mãozinha" e colocou Vasco na Austrália (na adega onde tinha estado) para um estágio, tendo Vasco regressado e assumido os vinhos em 2005. Surge assim a marca Pedro Milanos. São 3ha de vinha (eram 7 ha de vinha mas a construção da A24 levou 4ha).

Neste momento produzem 4 vinhos, Pedro Milanos Branco, Rosé e Tinto, a um PVP de 7,5€ e o Pedro Milanos Reserva Tinto, a uma PVP de 9€.

Os colheita são vinhos interessantes, mas ainda em proceso de afinação, na minha opinião (provei o branco e o rosé apenas), mas o que gostei mesmo mais foi do Pedro Milanos Reserva Tinto.

Um tinto, de 2015, com as castas típicas do Douro e com passagem de 12 meses por barrica. Apesar dos seus 14º de alcool, se tivermos cuidado com a temperatura, teremos um bom exemplar do Douro, para a mesa - para a comida de tacho, ou asssados, onde com os seus taninos firmes, mas civilizados, vai harmonizar na perfeição. Acompanhou uns rojões e deu um grande prazer. Um projeto familar a acompanhar de perto.

Sérgio Lopes

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Radar do Vinho: Gerações de Xisto

Gerações de Xisto resullta de uma vontade de Frederico Lobão e Paulo Grandão, responsáveis pelo projeto, dar continuidade ao legado deixado, num território que lhes é muito querido, Muxagata, em Vila Nova de Foz Coa Apaixonados pela sua terra e apostados em preservar o património rural familiar e as tradições herdadas a recuar gerações. O projeto contempla a junção de duas casas agrícolas, a Chousas Nostras dedicada ao azeite, e o Vales Dona Amélia direcionada para a produção de vinhos. Com enologia de Rui Carrelo, neste momento produzem 3 vinhos - um branco e dois tintos. 

O Gerações de Xisto Branco 2017 é produzido 90% de Rabigato (completamente típico na zona de Muxagata) e 10% de Arinto. Trata-se de um branco fresco, com alguma mineralidade, herbáceo e floral, mostrando-se bastante equilibrado. Sem passagem por madeira.  Foi o que gostei mais dos 3 vinhos apesar de considerar o seu posicionamento de preço um pouco acima, sobretudo em comparação com alguns brancos da região. Veremos como evolui em garrafa, pois vai na sua primeira edição. PVP: 12€

O Gerações de Xisto Tinto 2014 é feito dos famosos 3 "Ts" do Douro - Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, com passagem por madeira usada de segundo e terceiro ano durante 12 meses. Vinho de taninos firmes, mas civilizado, com alguma rusticidade, a pedir para ser consumido à mesa. PVP: 7€

Finalmente, o Vales Dona Amélia Tinto 2014, também produzido com os 3 "Ts" do Douro e com passagem de 12 meses por barrica de segundo ano. Mostra-se nesta fase bastante fechado, com taninos bem presentes, a pedirem tempo para amaciar. Um vinho com alguma opulência, para consumo à mesa, certamente e que beneficiará de mais algum tempo de garrafa e decantação prévia ao seu consumo. PVP: 14€

Um projeto iniciado apenas em 2010 e que acompanharemos a sua evolução. Todos os vinhos disponiveis em Garrafeiras Sekeccionadas e no ECI.

Sérgio Lopes

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Radar do Vinho: Novas collheitas do vinho Giz

Com um passado ligado à bioquímica, Luís Gomes decidiu dar novo rumo à sua vida, para se dedicar a uma das suas grandes paixões - o vinho. Após o MBA em gestão e marketing seguiu-se o mestrado em Viticultura e Enologia no Instituto Superior de Agronomia, que lhe permitiu desenvolver competências nas áreas da concepção, planeamento e gestão das melhores práticas vitícolas e enológicas, em função dos vinhos que idealiza e recria. Nasce assim o projeto a solo, em solo de natureza calcária, fazendo lembrar Giz! 

Trata-se de um projeto muito recente, que assenta na recuperação de vinhas velhas centenárias, repletas de castas autóctones, onde predominam a Baga e a Maria Gomes. Os vinhedos estão plantados em solos pobres de natureza calcária e proporcionam a construção de vinhos únicos e inconfundíveis que vão na sua quarta edição. O nome Giz, é muito feliz, pois tem tudo a ver com esse lado calcário presente e o projeto é altamente moderno em termos de imagem e com um perfil de vinhos com muita elegância e finesse. Provamos há poucos dias as novas colheitas e adoramos!


Giz Vinhas Velhas Branco 2017 - Maria Gomes e Bical | 1800 garrafas. Vinho com nariz muito complexo, cheio de mineralidade e com um toque citrino e floral. Mantém o perfil de contenção aromática, ainda que se mostre mais exuberante que a edição anterior, de 2016.  Na boca, a passagem em parte por madeira americana usada conferiu-lhe um lado mais untuoso, em contraponto com o 2016, que era mais tenso e crocante. De corpo médio, é fresco, com madeira bem integrada e final muito apelativo. Vai crescer em garrafa e será um sucesso garantidamente. Gastronómico! PVP: 19€

Giz Vinhas Velhas Tinto 2016 -  Baga | 3600 garrafas | Um upgrade na minha opinião em relação à edição anteriot. Muito complexo, entre notas de frutas silvestres, especiarias, tabaco, calcário, cheio de frescura e intensidade. Na boca, taninos elegantes, mas sem deixar de ter alguma opulência. Um Baga a meio caminho entre a tradição e a modernidade (?), com adstrigência qb e que vai evoluir brilhantemente em garrafa. Muito equilibrado entre nariz e boca. PVP: 19€

Giz Vinha das Cavaleiras Tinto 2016 - Baga | 1400 garrafas. Produzido de uma vinha centenária, muito velha, a Vinha das Cavaleiras de apenas 2 hectares. Aroma ultra fino, muito complexo, contido, com laivos de calcário, fruta, especiaria, tudo com grande classe. Na boca, muito sedoso e envolvente, quase mastigável, com enorme elegância. Corpo médio, enorme acidez e frescura e um enorme prazer. Um vinho em constante mutação no copo, com final muito longo e de potencial enorme em garrafa. Rivaliza seguramente com um grande Borgonha. Delicioso e diferenciador! PVP: 27€

Sérgio Lopes

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Momentos á volta do vinho – O Leitão e as Bageiras, de improviso

Com a passagem na TV, há pouquíssimos dias, de uma peça dedicada à familia Bageiras, encabeçada por Mário Sérgio Alves Nuno, recupero um texto que escrevi para a revista Paixão pelo Vinho, onde Bageiras e Leitão do mugasa, foram os protagonistas desta minha memória. Já lá vão alguns anos, não me recordo da data exata, estava eu a vir de Lisboa para o Porto, nesse dia e a minha irmã estava deslocada em Abrantes, em trabalho, sem carro. Nesse mesmo dia, o meu cunhado fazia anos. Ainda não havia filhos… e, de repente lembrei-me, porque não fazermos um jantar e comemorar o seu aniversário com um belo leitão à Bairrada? Afinal de contas, íamos chegar ao Porto, ainda a tempo do jantar. E ficava a caminho… Toca a ligar para o Mugasa, restaurante situado na Anadia, mais propriamente em Fogueira (Sangalhos) e encomendar um leitão à maneira. A primeira parte, estava conseguida. Faltava agora o espumante para acompanhar o belo do leitão… Como vamos fazer? O primeiro nome que surgiu foi naturalmente Mário Sérgio Nuno – produtor bairradino e ali ao lado, também em Fogueira, ao qual liguei de imediato e pedi para me arranjar uma caixa do fabuloso espumante Quinta das Bageiras Grande Reserva Bruto Natural 2003. Tínhamos estado nas Bageiras há pouco tempo e provado esse fabuloso espumante! O Mário Sérgio disse logo: “não te preocupes, Sérgio, eu entrego-o no Mugasa e levas isso fresco para o Porto…”. Depois de apanhar a minha irmã, em Abrantes, lá seguimos, rumo ao Mugasa, enquanto no Porto, a minha miúda, se encarregava de providenciar o bolo de aniversário. Não queríamos que faltasse nada, neste aniversário de improviso.

Chegados ao Mugasa, a Dona Helena, lá nos mostrou o “bichinho”, pequeno como sempre e com excelente aspeto, acabadinho de sair do forno, superiormente assado pelas sábias mãos do Ricardo. Que maravilha! À nossa espera, estava também um balde de plástico, daqueles que levam banha de porco para assar o leitão. Em vez de banha, o balde continha camadas de gelo a cobrir as garrafas de espumante que o Mário Sérgio tinha entregue no restaurante. Que categoria!

Ainda houve tempo para a Dona Helena cortar superiormente o Leitão (não é cortado de qualquer maneira), enquanto nos explicava com o carinho e doçura que a caracterizam, como se faz. Lá seguimos viagem, eu, a minha irmã, o balde com as garrafas de espumante e o leitãozinho assado à moda da Bairrada, com um aroma inebriante a acompanhar-nos todo o caminho. Quanto ao jantar, ficou na memória de nós os quatro, em particular do meu cunhado, que até ao dia de hoje continua a dizer “foi o melhor leitão que comi e o melhor espumante que bebi. Que grande aniversário!”. Ah, e sem molho, pois o verdadeiro leitão, não precisa de molho a acompanhar. São estes momentos, que perduram nas nossas memórias, que nos apaixonam pelo vinho. Um brinde a momentos de felicidade e partilha!

Sérgio Lopes , in Revista Paixão Pelo Vinho

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Em Prova: Alambre Moscatel 20 anos


Este vinho já é um clássico no que concerne a Moscateis de Setúbal. Da José Maria da Fonseca , produzido pelo talentoso enólogo Domingos Soares Franco, é uma referência de qualidade e consistência ano após ano. O Alambre 20 Anos é elaborado a partir da casta Moscatel, constituído por um lote de 19 colheitas em que a colheita mais nova tem pelo menos 20 anos e a mais antiga perto de 80 anos, resultando num vinho complexo, aromático, elegante e com um longo final de prova. É companhia frequente cá em casa, mas recentemente provei-o às cegas no concurso de vinhos Grandes Escolhas onde foi o vinho vencedor na categoria generosos, recebendo uma honrosa e merecida medalha Grande Prémio Escolha da Imprensa. E de facto, esta última edição está com um equilibrio fenomenal entre doçura e acidez, acrescentando uma definição de pureza do lado citrino tipico da casta notável. Notas caramelizada, café e fruto seco, completam um bouquet que tem tanto de complexo como elegante. Uma delicia e uma tentação. Grande Moscatel! PVP: 25€ (0,5cl). Garrafeiras.

Sérgio Lopes