sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Em Prova: Quinta das Bageiras Pai Abel branco 2010


17,5/20. No dia em que se inicia mais uma edição do simplesmente... vinho, o maior encontro de vignerons de Portugal, nada como falar de um vinho de um desses vignerons, o grande Mário Sérgio Nuno Alves, da Bairrada. Os seus garrafeira tinto e branco são já lendários, feitos à moda antiga, com estágio em tonel de Madeira, vinhos de enorme longevidade. O Pai Abel 2010 é também um garrafeira, mas em homenagem ao estilo que o seu pai mais gostava, produzido de maneira um pouco diferente. Assim, o vinho passa por estágio em barrica usada e não em velhos toneis e utilizando vinhas um pouco mais novas. Mas não fica nada atrás do Garrafeira Branco. O que o garrafeira tem em potência, o Pai Abel tem em elegância, finesse, madeira super integrada - sem marcar e uma enorme acidez que lhe confere a tal longevidade. Um estilo diferente, do habitual das Bageiras mas igualmente muito prazeroso. Provado muito recentemente, com 7 anos de idade agora,  e tanta juventude e vida pela frente! PVP: 20€. Disponibilidade: Niepoort Projectos.

Sérgio Lopes

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Da minha Cave: Altas Quintas Tinto 2007

São sensações como as causadas por este vinho que me fazem correr riscos (de ter vinagre em vez de vinho :-) ) ao esquecer propositadamente de algumas garrafas para as revisitar anos mais tarde...

Este Alentejano nascido em 2007 a 600m de altitude na Serra de São Mamede e vinificado pelas mãos de Paulo Laureano com Aragonês (Tinta Roriz), Trincadeira (Tinta Amarela) e Alicante Bouschet com posterior estágio em barrica de carvalho, mostra uma exótica e apelativa complexidade aromática e gustativa. É um verdadeiro "gentleman" sedutor, elegante, afável mas com personalidade vincada. Sempre surpreendente durante a prova, não se absteve de me cativar os sentidos com o seu mutável exotismo... deixando morosas marcas da sua passagem pelo palato !

Não foi certamente o melhor vinho que bebi! Mas quão importante isso é se me proporcionou este prazeroso momento!?

E agora que já manifestei os sentimentos que me despertou... vou continuar a namorar com ele...

Jorge Neves (Wine Lover)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Radar do Vinho: Casa da Passarella, estórias com muita história

A Casa da Passarella é uma propriedade histórica da região do Dão, cuja origem remonta ao final do século XIX. São 100 hectares, dos quais 45 hectares são de vinha, localizados na frescura do sopé da Serra da Estrela, e cheios de "estórias" para contar. Ao longo do século XX viveu uma época de Ouro, com testemunhos de personagens fantásticos que por lá passaram e que moldaram o "lugar da Passarella" e contribuiram para o misticismo do local. Nomes lendários da enologia portuguesa como Manuel Pato ou Alberto Vilhena, passaram e foram parte integrante do projeto. O primeiro registo de engarrafamento data de 1893 e encontra-se exposto no centro de interpretação - Villa Oliveira, agora a referência de topo da Passarella. Assistiu-se depois a um declínio que foi interrompido em 2008 com o renascer do projeto por novos proprietários e a entrada para a enologia de Paulo Nunes, primeiro como enólogo consultor, depois como residente (a partir de 2012).

Paulo Nunes é uma das faces mais visiveis do projeto e um dos principais responsáveis pelo crescimento dos vinhos da Passarella. Ao longo do tempo tem sabiamente respeitado a herança do local e o saber das pessoas, potenciando o que de melhor a Casa da Passarella tem para oferecer: estórias de uma história rica, por trás de cada vinho e que é parte integrante do mesmo no perfil: O blend de vinhas com diferentes exposições, que transformam os vinhos num reflexo do terroir.

Fomos recebidos pelo Paulo Nunes que nos foi mostrando as vinhas e as diferenças entre as mesmas epartilhando connosco várias estórias de um passado riquissimo. Quase que se sentia no ar essa riqueza histórica, em cada metro do "lugar da Passarella". Depois foi a visita à adega onde modernas cubas de Inox convivem com cubas de cimento; onde barricas de carvalho convivem com toneis; onde milhares de garrafas repousam para dar lugar às várias referências da casa.

De seguida, Paulo Nunes tinha preparado para nós uma sublime prova. Perdão, aliás 3 provas verticais: Encruzado, Vinhas Velhas e Fugitivo. Uau! Os Encruzados de 2011 a 2015 a mostrarem uma frescura irrepreensível da casta. Vinhos gastronómicos e com muito para dar, com muita acidez. Foi curioso perceber a evolução desta casta, passando por registos mais florais, ou mais frutados, ou até por momentos "+ flat", consoante o momento / ano. Altamente didáctico!


Os vinhas velhas tinto de 2008 a 2012, com o 2008 a mostrar uma forma brutal. Todos elegantes e ainda muito jovens. E pensar que estes vinhos quando saíram para o mercado eram uma pechincha nas grandes superfícies. Finalmente, a gama Fugitivo, vinhos "fora do baralho". Paulo Nunes procura produtores locais de vinhas centenárias ou com métodos de vinificação diferentes dos da casa para lançar algo verdadeiramente diferente, todos os anos. Provamos o Fugitivo tinto feito de vinhas centenárias dos anos de 2012 e 2013, respeitando a forma de produção do "produtor" local e o branco de curtimenta de 2015, um branco feito à moda antiga, como se de um tinto de tratasse. As três referências fabulosas, sendo o tinto extremamente viciante e puro veludo , enquanto  o branco untuoso, com uma acidez brutal e uma boca interminável. Excepcional. 

Depois desta prova memorável, fomos almoçar umas entradinhas de enchidos muito saborosos e um fabuloso cabrito assado em forno a lenha, acompanhado é claro dos topos de gama Villa Oliveira.

 


Fiquei completamente rendido ao Villa Oliveira Vinha das Pedras Altas, a expressão de uma vinha. Que grande vinho cheio de elegância, finesse e vigor. Fiquei fã. Acompanhado bem de perto por um igualmente excelente Villa Oliveira Touriga Nacional. Ou o Villa Oliveira Encruzado que tão bem acompanhou a sobremesa. Que branco...! Que vinhos!


Terminamos o dia (longo mas muito prazeroso) com uma visita à vinha centenária e prova de barricas na Adega entre produtos acabados e outros por acabar, em inox, barrica ou Tonel, sempre com uma paixão contagiante e enorme disponibilidade de Paulo Nunes, verdadeiro embaixador do projeto. Obrigado Paulo pela fantástica visita e parabéns pelo trabalho desenvolvido. 

Não há dúvida que a Casa da Passarella honra e bem o passado, presente e seguramente futuro da região do Dão.

Fotos cortesia de Luis Pádua

Sérgio Lopes

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Em Prova: Quinta do Todão Melhores Vinhas Reserva Tinto 2012


16,5/20. A Quinta do Todão fica situada em frente a Gouvinhas, Sabrosa. Durante muitos anos vendiam as uvas, mas mais recentemente decidiram produzir o seu próprio vinho, o que tem acontecido com alguns produtores de dimensão mais pequena, do Douro. O vinho é feito na Quinta do Crasto, com enologia a cargo de Manuel Lobo (que aliás auxiliou na reconversão dos 50 hectares de vinha da Quinta do Todão). Este reserva tinto de 2012, feito com as melhores vinhas de castas durienses (60% Touriga Nacional+ 30% Touriga Franca+ 10% vinhas velhas (castas misturadas), apresenta o perfil típico dos vinhos com o dedo de Manuel Lobo, do vizinho Crasto: Aroma perfumado com fruta de qualidade, barrica bem integrada, vertente de elegância em vez da concentração, muita frescura, e uma boca sedosa e final longo de pendor gastronómico. Gostei muito do que provei! PVP: 12,5€. Disponibilidade: Garrafeira Nacional. 

Sérgio Lopes

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Inspira Portugal: Masterclass de Arinto, por Hugo Mendes

No próximo dia 18 de Março, irá decorrer, na Quinta das Carrafouchas, em Loures, o evento Traz um Arinto também! O propósito é o de descobrir as virtudes do Arinto, numa Masterclass que irá analisar as caraterísticas da Casta, o que a distingue das outras e a forma como se comporta de norte a sul do País. 

A formação (direcionada a enófilos, bloggers e profissionais) será ministrada pelo enólogo Hugo Mendes e irá abranger três áreas: Enologia, Adega e Prova comentada de dez Arintos (a escolher previamente por um painel de especialistas). Os restantes vinhos enviados pelos produtores poderão ser também degustados (e analisados) durante o almoço e prova da tarde, em conjunto com os Arintos que cada participante queira trazer e partilhar.

A Masterclass tem o preço de 40€, 50€ com almoço (20% de desconto para grupos) e só o almoço (com prova dos Arintos não incluídos na masterclass e que os participantes levarem para partilhar) será 20€. Para efetuar a inscrição será através do email inspira.portugal@gmail.com

Sobre o Inspira Portugal: O Inspira Portugal é um Projeto que o enólogo Hugo Mendes (Quinta da Murta. Quinta das Carrafouchas, Adega da Labrugeira. etc.) criou para a realização de eventos ligados ao vinho, visando essencialmente dois aspetos:
- Formação enófila sobre vinhos Portugueses de castas Portuguesas;
- Divulgação de vinhos e produtores que apostam nas castas Portuguesas.

Sérgio Lopes

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Em Prova: Vinhas de Pegões Syrah 2015

Aceitei o repto do Duarte Filipe Silva para uma espécie de "Pegões Challenge" à volta do Vinhas de Pegões Syrah 2015, que ele gentilmente me cedeu para provar. Arrepiei caminho e com grande expectativa (um misto do que eu já conheço vs o que leio por aí) botei-o no copo. Vamos tentar dividir isto por partes: 

1) se alguém - como eu - que não perceba muito desta casta, vai ficar um bocadinho mais na mesma, pois o que vem dali são evidentes notas de madeira no vinho: baunilha (a minha filha, grande apreciadora do Magnum da Olá comprovou), caramelo, tabaco, alfazema e depois um incenso no final que nos remete para a queima de alguns óleos de árvores como o sândalo. 

2) é exactamente aqui que me ponho a pensar, que onde acaba o meu prazer pode ser onde começa o de todo um público que procura e consegue encontrar isto num vinho; só me chateia o facto de no final de contas não haver grande diferença entre tantos outros monocastas, mas é a vida. 

3) no contra-rótulo da garrafa vem mencionado: "... melhores uvas das castas Syrah", deixou-me com aquela sensação imediata de que seria possível preencher esse espaço com mais castas, ou só uma ou outra, como numa fantasia de quem pode estar a beber aquilo, ou o que quiser que seja; mas isto sou eu a divagar, pois continuei a beber mais um pouco. 


4) finalmente, a foto acima, relata um pouco o resultado deste desafio que repito, deu-me muito prazer fazer (mais do que a beber, como é visível na minha marca), até porque me interessam bastante estes e outros fenómenos, e até sou conhecido por ter gostos não muito caros e demasiado refinados. e o vinho até tem alguma acidez.

Marco Lourenço (Cegos por Provas)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Opinião: O Dão no seu melhor, Quinta da Fata 1958

O terceiro quartel do século XX (1950-1975) foi sem dúvida uma época marcante, para o bem e para o mal, no panorama vínico nacional. Nesta época vivia-se uma espécie de “troica vínica”, ou seja, um sistema no qual o consumidor podia optar para realizar a compra dos vinhos para beber em casa. 

Por um lado, o vinho podia comprar-se a granel na tasca e havia tantas opções por onde escolher. Por outro lado, também podiam adquirir os vinhos engarrafados ou engarrafonados através das adegas cooperativas, criadas nesta altura, nas regiões mais produtivas. Por fim, havia ainda as empresas armazenistas (Real Companhia Velha, Caves S. João, Caves Aliança, entre outras), que detinham algumas das marcas mais cobiçados pelos enófilos de então e que ainda perduram nos dias de hoje: Grantom, Sidrô, Terras Altas, Meia Encosta, etc.

Sir Eurico Amaral (Foto by Marco Lourenço)
Era este o panorama vínico nacional no tempo em que o Dr. Eurico Amaral (pai) viajava com frequência pelas principais capitais vínicas europeias com o intuito de provar os vinhos mais famosos de então. Deste hábito, raro e inacessível para o comum dos portugueses seus contemporâneos, surge a constatação pessoal de uma premissa quase irreal: o Dão possuía o melhor vinho do mundo. E quantos mais vinhos estrangeiros provava mais ficava convencido dessa afirmação.

Com o passar dos anos, um desígnio ia fermentando na cuba dos seus sonhos: a criação de um vinho de quinta com as uvas provenientes das suas vinhas em Vilar Seco. Estávamos então na década de 50!

E se bem o pensou, melhor o fez. O Dr. Eurico Amaral (pai) contou com a ajuda do Engenheiro Vilhena para em conjunto recorrerem às velhas técnicas dos Dão, ou seja, misturar as castas tintas tradicionais: Baga, Touriga Nacional e Jaen entre outras, com algumas das castas brancas nos tradicionais lagares de granito Beirão. 

O resultado foi um vinho tinto de cor aberta, tradicional na altura, mas nunca foi lançado para o mercado já que o pai do projeto começou a apresentar problemas de saúde e acabou por vender a quase totalidade da colheita de 1958. Sim, leu bem. 1958.

Hoje em dia os afortunados que provam este vinho raro, o Quinta da Fata 1958, constatam a sua frescura, equilíbrio, elegância, acidez e final longo. Um vinho de classe mundial.

Afinal, o Dr. Eurico Amaral (pai) tinha razão.

Paulo Pimenta (Wine & Stuff)