terça-feira, 16 de abril de 2019

Radar do Vinho: Quinta do Côtto

Tomei contacto mais próximo, recentemente, com os projectos Quinta do Côtto e Paço de Teixeiró, ambos pertencentes à familia Champalimaud. A Quinta do Cotto é seguramente um nome conhecido do Douro, produzindo vinho tinto desde 1960 e cujos seus Grande Escolha são verdadeiros clássicos da região, cheios de carácter e longevidade. São 77 hectares de vinha, rodeadas de mata, localizadas no início da sub-região do baixo-Corgo. A Quinta do Paço de Teixeiró localiza-se na sub-região de Baião- Vinhos Verdes, composta por 7 hectares de vinha nos contrafortes do Marão. Tem um microclima muito próprio, com o solo ainda duriense (Xisto) e as noites frias da serra ajudam a que as uvas tenham um caracter muito próprio. Complementa assim a oferta do grupo, com vinhos brancos que a Quinta do Cotto não produz.
A enologia está a cargo de Lourenço Charters que tenta aportar o seu cunho pessoal ao projecto, priveliginado o terroir e a tradição. Todos os vinhos são feitos de uvas provenientes das suas Quintas e vinificados e engarrafados nas propriedades. Foi por isso um prazer visitar este projecto e poder constatar in loco o trabalho de renovação e reabilitação que Lourenço está a operar, mantendo um respeito enorme pela história da casa, limitando-se a reproduzir as melhores práticas de antigamente, mas com olhos postos no futuro. Depois da visita às vinhas e à adega, Lourenço tinha preparada uma prova com algumas referências antigas para mostrar a longevidade dos vinhos Durienses e também da região de Baião.
A Quinta do Paço de Teixeiró posui 2 vinhos, um feito de Avesso (80%) e Loureiro (20%) PVP 7€, aromático e fresco, mineral e equilbrado, mas com uma boca interessante e uma belíssima acidez; e um Avesso 100% com fermentação e estágio em barrica onde se procura maior complexidade aromática e uma boca com maior volume e untuosidade. Uma produção de apenas 1600 garrafas deste útlimo vinho que Lourenço Charters pretende ainda afinar mais. PVP: 13€. Provaram-se para além das colheitas mais recentes no mercado, a versão sem barrica, Paço de Teixeiró 2008 e a versão com barrica, Teixeiró Grande Escolha 2010, ambos ainda muito vivos, a demonstrar a longevidade destes vinhos brancos.
O Vinho Quinta do Côtto é um blend das várias parcelas da Quinta, em que 40% do lote estagiou em barricas usadas e novas durante 12 meses os restantes 60% em Cubas de Inox. Trata-se de um tinto de perfil clássico, com a fruta em primeiro plano, madeira bem integrada, nada extraído, competente e muito equilibrado. PVP: 8€. Muito seco e um great value, para quem apreciar um perfil mais tradicional, para a mesa. Para além da colheita mais recente no mercado, provamos os anos 2004 e 2008, ambos com rolha "screw cap", mostrando-se muito fechados, com anos de vida pela frente. O Quinta do Côtto Vinha do Dote é de uma só parcela, localizada a uma cota mais baixa (140m) e com aproximadamente 90 anos. É chamado vinha do Dote pois a vinha foi trazida como dote em 1865. Estagia 15 meses em barrica usada. Aqui já estamos na presença de um vinho onde as vinhas velhas aportam uma grande complexidade, com aroma complexo e muita finesse, onde predominam notas de especiarias e frutos vermelhos maduros. Bom volume de boca, com taninos sedosos, com longo e persistente final. Com grande potencial, na minha opinião e a mostrar-se muito melhor à mesa, seguramente. Um grande vinho, elegante e muito fresco, mesmo ao meu gosto PVP: 20€. O histórico Quinta do Côtto Grande Escolha que apenas sai em anos especiais e cuja última edição é de 2015, não foi provado.
Para o final deixo o vinho que mais me surpreendeu, o Quinta do Cotto Bastardo (20€), um ensaio de pouco mais de 400 garrafas que Lourenço redescobriu traduzindo-se num vinho com pouquissima extração, mas cheio de sabor, seco e com enorme frescura. Um vinho viciante e totalmente fora do baralho. Esgotado já no produtor, mas uma aposta seguríssima e demonstrativa do cunho pessoal que Lourençlo começa a aportar ao projecto.

Sérgio Lopes

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Em Prova: Drink Me Nat Cool Bairrada Tinto 2017

Nat Cool, naturalmente “cool and funky”, é um conceito inovador criado pela Niepoort, um movimento de união entre diversos produtores com o objectivo de criar vinhos leves e fáceis de beber. 

Na Bairrada foi criado o DrinkMe, o primeiro NatCool, com o objetivo de mostrar um lado diferente e elegante da casta Baga, mais fácil e direto.

Proveniente de vinhas velhas, passa apenas por Inox.

Leve na cor, o Drink Me Nat Cool Tinto 2017, 2ª edição desta referência,  apresenta-se levemente frutado e floral e sobretudo muito fresco ao primeiro impacto.

A Baga está lá com a fruta vermelha, algumas notas calcárias e um tanino civilizado, que lhe dá uma boca macia, mas muito interessante.

Ainda que num perfil fresco, direto e até sedutor, tem estrutura qb para aguentar alguns pratos, sobretudo entradas, deixando-se beber com muita facilidade, inclusivé a solo, convidando sempre a mais um copo.

Vendido em garrafas de 1 litro e servido ligeiramente fresco, foi a companhia idela para as entradas e pizza do restaurante Vila Mar. E o vinho entre os convivas, desapareceu por completo, com sucesso.  Naturalmente (cool). PVP:11,50€. Garrafeiras.

Sérgio Lopes

terça-feira, 9 de abril de 2019

Em Prova: Quinta de La Rosa Tinto 2017

A Quinta de La Rosa pertence à família Bergqvist desde 1906. Actualmente tem 55 hectares de vinhas e produz anualmente cerca de 50.000 litros de porto e cerca de 160.000 litros de vinhos de mesa. Está localizada no coração do Alto Douro Vinhateiro na margem direita do rio Douro, perto do Pinhão. Conta com enologia de Jorge Moreira (Real Companhia Velha, Poeira) e para além do vinho produz azeite e... cerveja, para além de oferecer um alojamento turisitcos de elevada qualidade com um vista deslumbranbte sonbre o rio Douro.

O Quinta de La Rosa Tinto 2017 é uma das referências da casa, produzido das castas Touriga Nacional (60%), Touriga Franca (12%), Tinta Roriz (8%) e Sousão (5%). Os restantes 15% são uma mistura de castas provenientes de Vinhas Velhas. Na sua maioria, uvas A maioria da vinha de Lamelas, plantada há mais de 30 anos por Tim Bergqvist, proprietário e pai da actual gestora da Quinta de la Rosa, Sophia Bergqvist.

Trata-se de um tinto jovem e fresco, pronto a beber, mas cheio de sabor. Frutado na medida certa - com a fruta vermelha e preta caracteritica da região, especiado qb - para lhe conferir a complexidade que necessita. Na boca, os taninos são macios, mas firmes, mostrando-se um conjunto equilibrado, com uma boa acidez, sem sinais de sobre maturação e até algo guloso, com final persistente.

Um good value que acompanhou na perfeição um bacalhau com boroa, como documenta a foto acima. PVP: 9€. Garrafeiras e Retalho.

Sérgio Lopes

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Fora do Baralho: Herdade do Rocim Clay Aged Branco 2017

Numa altura em que o Alentejo parece querer recuperar a tradição milenar do vinho da talha, destaco este exemplar, o Herdade do Rocim Clay Aged Branco 2017. Apesar de eu não ter provado muitos vinhos de talha, sobretudo brancos, e apesar da polémica sobre o que é realmente uma talha (com ou sem tratamento de impermeabilização), confesso que este vinho chamou-me a atenção no jantar da gala da revista Grandes Escolhas, onde foi prémio de excelência e onde tive a oportunidade de o provar à mesa e adore. Feito de Verdelho, Viosinho e Alvarinho, é pisado a pé em lagar de pedra, com o seu engaço, apenas com leveduras indigenas (como se de um tinto se tratasse), com posterior estágio de 9 meses em talhas de barro de 140 litros. Talhas essas, fruto da colaboração com uma universidade francesa para criar pequenas ânforas de apenas 140 litros, feitas de argila de sua própria propriedade, especialmente projetadas para serem usadas sem forro, permitindo taxas semelhantes de micro-oxigenação como as barrricas novas de carvalho francês. O resultado é um vinho desconcertante. De cor ambar, fruto da "curtimenta", apresenta um aroma profundo mas subtil, com notas de pedra molhada, alguma fruta cristalizada, mas tudo num registo de contenção e muita complexidade. A boca é de taninos finos, com estrutura, fresca e muita texturada. Termina austero qb, com muita tensão e um final longo e ceroso. Um vinho com delicadeza, apesar da curtimenta e do estágio em talha. Acompanhou em dois momentos um cozido à portuguesa e um anho assado na brasa, de forma brilhante. Sempre a uma temperatura a rondar os 14 grausa para tirar o máxiumo partifdo da sua estrutura e complexidade. Um digno representante de um topo de gama - branco, do... Alentejo, para apreciar vagarosamente! PVP: 35€. Garrafeiras.

Sérgio Lopes

sexta-feira, 29 de março de 2019

Fora do Baralho: Quinta Olival da Murta (Serra Oca)

A Quinta do Olival da Murta é um projecto de natureza familiar, que vai na sua quarta geração. Situada na Estremadura, a 80 Km da cidade de Lisboa, possui terrenos de grande influencia Altlântica e um micro clima da vertente norte da Serra de Montejunto, caracterizado pela grande amplitude térmica. Pertence à Sub região de Óbidos, uma das nove denominações de origem da “Região de Vinhos Lisboa”, que se caracteriza por vinhos tintos aromáticos, ricos em tanino e com grande capacidade de envelhecer em garrafa, e uma grande diversidade de brancos frescos e equilibrados. O projecto contempla um tinto e dois brancos, ambos muito originais, quer nas castas utilizadas, quer no método de produção, com recurso a alguma "curtimenta".
O Serra Oca Tinto (13€) é um vinho composto por Aragonez, Touriga Nacional e Castelão, com fermentação em lagar e passagem por madeira, por 18 meses. Há duas edições no mercado, atualmente, 2014 e 2015, sendo que preferi esta última, onde achei a madeira um pouco menos presente (embora não se sinta em demasia no 2014). São ambos tintos suaves, frescos e fáceis de beber, bem ao estilo da região de Lisboa. As grandes joias da coroa, na minha opinião, são os brancos, ambos de curtimenta e por isso, originais. O Serra Oca Branco 2017 (12,5€) é composto por Arinto (50%), Fernão Pires(45%) e Moscatel Graúdo (5%), fermentadas em separado em lagar com leveduras espontâneas. O Arinto e Fernão Pires com maceração pelicular e fermentação em barrica. Moscatel com curtimenta completa (estilo orange wine). Parte do lote estagia em barricas usadas de carvalho francês e restante parte do lote com estágio em inox. O resultado é um vinho mineral, com notas de laranja cristalizada e algum fruto seco. A boca é austera, com uma secura impressionante e uma acidez que marca este estilo de vinhos "orange", terminando intenso. Um vinho realmente original e "duro". Mais original ainda e o meu preferido de todos, o Serra Oca Moscatel Graúdo 2017 (12,5€), um branco de curtimenta completa, de uma casta também pouco usual. O aroma é muito complexo, com notas florais, fruta exuberante e toques melados. Tudo muito fresco. No entanto, a boca é algo mais contida de intensidade - elegante, mas a acidez lancinante que apresenta, fá-lo brilhar. Quase que parece um vinho que ameaça ser "bonito"  e exuberante pelo nariz, mas que na boca "arrasa" pela sua acidez. Apenas 12,5º de alcool e 600 garrafas produzidas, num ensaio que tem tudo para continuar. Mesmo "sui-generis".

Serra Oca (onde se diz que se ouve o mar)

Sérgio Lopes

terça-feira, 26 de março de 2019

Novidade: Ládano

Mais um projeto novo, de um jovem, Daniel Carvalho Costa, que após ter trabalhado 12 anos no mundo do vinho, com diversas experiências, sentiu que tinha chegado o momento de seguir o seu próprio projeto. Nasce assim o projecto Ládano, em 2018, que para já contempla apenas dois vinhos, um tinto e um branco, provenientes de vinhas quase centenárias, situadas no Douro Superior, mais propriamente em Freixo de Espada à Cinta. O mote do projeto é o de expressar o terroir do Douro Superior e da vinha velha, resultando em vinhos distintos, com pouca intervenção e com fermentação espontânea. Daniel, sendo a 4ª geração de uma familia de produtores Durienses (Quinta de Santa Eufémia), o vinho naturalmente corre-lhe no sangue. Neste momento partilha a adega com o amigo Pedro Coelho (Pormenor Vinhos), mas a ideia é crescer de forma sustentada. A título de curiosidade, Ládano é a resina que provém da planta esteva, planta tão característica nos descritores sensoriais dos nectares durienses. Destaque também para a rotulagem, bonita e sóbria, com apontamentos de azulejos, a fazer lembrar... Portugal.

O Ládano Branco 2016 é produzido das castas Rabigato e Arinto, de uvas plantadas entre 400-600 metros de altitude, de uma vinha com 50 anos. Trata-se de um vinho muito fresco, cremoso, elegante e mineral, onde a barrica velha utilizada por 12 meses está perfeitamente integrada, conferindo apenas mais volume e untuosidade. Não sendo um potento de acidez, como até se poderia esperar pelas castas utilizadas, é um vinho muito contido e seco, com uma frescura e cremosidade não muito habituiais para o Douro Superior. Vai crescer em garrafa. 12,5º de alcool e apenas 1000 garrafas produzidas. PVP 14,5€. O Ládano Tinto 2016 provém de uma vinha com cerca de 70 anos, de videiras com mais de 15 variedades de castas. Estamos na presença de um vinho com uma fruta preta e vermelha silvestre muito bonita e fresca. A boca apresenta taninos macios e algo aveludados, mostrando-se um conjunto sumarento, equilibrado e amigo da mesa. Termina com bom comprimento e sem excessos. Também gostei, sobretudo porque sendo de um terroir tipicamente com ampltudes termicas muito elevadas, mostra-se fresco e com fruta apetecivel, sem sobrematurações. 4600 garrafas produzidas. PVP: 14,5€. Um projecto a acompanhar.

Sérgio Lopes

quinta-feira, 21 de março de 2019

O Rio Minho, a fronteira do grandioso Alv(b)ariñ(h)o

Abaixo do Rio Minho, está localizada Monção e Melgaço, uma sub-região incorporada na região dos Vinhos Verdes onde a casta Alvarinho tão bem se exprime, sobretudo, pela conjugação de factores únicos – como clima, casta, solo e o factor humano –, produzindo vinhos singulares e inimitáveis. Vinhos brancos cheios de frescura e mineralidade. Trata-se de um terroir que usufrui de um microclima continental, promovido por uma cintura de montanhas, que protege as vinhas dos ventos húmidos. Os solos de onde as uvas são oriundas (terras de aluvião mais próximas do rio, terraços fluviais, por vezes com pedra rolada, ou cotas mais altas, onde predomina o granito mais fino) e as decisões tomadas na adega, definem depois o perfil dos vinhos que pode oscilar entre a fruta tropical, ou o lado citrino.

Acima do Rio Minho, passando a fronteira, estamos a entrar nas Rias Baixas, onde a casta Albariño (tenho de a escrever mesmo assim) também se exprime de uma forma igualmente original, resultando também em vinhos repletos de identidade. As Rias Baixas são uma das grandes divisões geográficas do litoral da Galíza. As rías são um braço de mar que, como se fosse um vale, se adentra na costa. As rías da Galíza estão divididas em Rías Altas (aquelas que ficam ao norte do cabo de Finisterra) e Rías Bajas (ao sul do cabo). Ou se preferimos abaixo de Santiago de Compostela, para mais fácil localizarmos. Aqui a influência é totalmente marítima e a proximidade com o Oceano Atlântico (por vezes com vinhas a escassas centenas de metro do mar) contribuem para uma salinidade evidente e que confere aos vinhos uma tipicidade muito própria. São vinhos também com uma elevada acidez e muita, muita frescura.
Os Protagonistas

Quando pensamos em Alvarinho é incontornável destacar Anselmo Mendes, talvez o maior nome associado ao estudo da casta e que produz vinhos, com enorme qualidade há mais de 25 anos, logo seguido de Soalheiro, também um dos pioneiros nesta matéria, sendo hoje em dia um dos maiores produtores da região. Em volume, só ficam atrás de empresas agregadoras de viticultores locais, tais como a Adega de Monção, PROVAM ou Quintas de Melgaço – Fantástico como a casta se dá tão bem na região produzindo vinhos de volume, mas com qualidade inegável. Outros nomes, no entanto, merecem igual destaque, de menor dimensão, mas enorme qualidade, como a Quinta do Regueiro, ou mais recentemente, já neste milénio, o surgimento de expressões diferentes da casta com projetos refrescantes, tais como Valados de Melgaço, Vale dos Ares ou Quinta de Santiago, entre outros.
Atravessando a fronteira, talvez o nome mais conceituado e a trabalhar a casta Albariño há mais tempo seja o produtor Zarate. A Bodega Zarate, localizada em Pontevedra, foi um produtor pioneiro no Albariño remontando ao século passado, quando começou a produzir esta variedade. Inclusive, Ernesto Zarate criou o Festival Anual de Albarino da região de Cambados, em 1953, que hoje é um dos eventos mais interessantes no que toca à mostra de vinhos Albariño. Mas é em redor do Vale de Salnes que ficamos ainda mais impressionados com os vinhos produzidos – secos, com muita acidez e cheios de salinidade. A conhecer: Albamar, o nome provém da junção do sobrenome da família Alba com a proximidade das suas vinhas ao mar; Benito Santos, vinhas encostadas ao mar e finalmente Alberto Nanclares, um dos maiores magos a trabalhar a casta em Espanha. Todos estes produtores têm em comum a mínima intervenção possível na feitura dos vinhos, uvas de vinhas bastante antigas, algumas delas centenárias e a expressão salina e mineral do terroir. Haverá seguramente outros mais, mas estes em particular, encheram-me as medidas este ano.
Esteja de que lado estiver do Rio Minho, viva o Alvarinho! E o Albariño…!

Sérgio Lopes (in Revista Paixão pelo Vinho)