quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Radar do Vinho: Novas collheitas do vinho Giz

Com um passado ligado à bioquímica, Luís Gomes decidiu dar novo rumo à sua vida, para se dedicar a uma das suas grandes paixões - o vinho. Após o MBA em gestão e marketing seguiu-se o mestrado em Viticultura e Enologia no Instituto Superior de Agronomia, que lhe permitiu desenvolver competências nas áreas da concepção, planeamento e gestão das melhores práticas vitícolas e enológicas, em função dos vinhos que idealiza e recria. Nasce assim o projeto a solo, em solo de natureza calcária, fazendo lembrar Giz! 

Trata-se de um projeto muito recente, que assenta na recuperação de vinhas velhas centenárias, repletas de castas autóctones, onde predominam a Baga e a Maria Gomes. Os vinhedos estão plantados em solos pobres de natureza calcária e proporcionam a construção de vinhos únicos e inconfundíveis que vão na sua quarta edição. O nome Giz, é muito feliz, pois tem tudo a ver com esse lado calcário presente e o projeto é altamente moderno em termos de imagem e com um perfil de vinhos com muita elegância e finesse. Provamos há poucos dias as novas colheitas e adoramos!


Giz Vinhas Velhas Branco 2017 - Maria Gomes e Bical | 1800 garrafas. Vinho com nariz muito complexo, cheio de mineralidade e com um toque citrino e floral. Mantém o perfil de contenção aromática, ainda que se mostre mais exuberante que a edição anterior, de 2016.  Na boca, a passagem em parte por madeira americana usada conferiu-lhe um lado mais untuoso, em contraponto com o 2016, que era mais tenso e crocante. De corpo médio, é fresco, com madeira bem integrada e final muito apelativo. Vai crescer em garrafa e será um sucesso garantidamente. Gastronómico! PVP: 19€

Giz Vinhas Velhas Tinto 2016 -  Baga | 3600 garrafas | Um upgrade na minha opinião em relação à edição anteriot. Muito complexo, entre notas de frutas silvestres, especiarias, tabaco, calcário, cheio de frescura e intensidade. Na boca, taninos elegantes, mas sem deixar de ter alguma opulência. Um Baga a meio caminho entre a tradição e a modernidade (?), com adstrigência qb e que vai evoluir brilhantemente em garrafa. Muito equilibrado entre nariz e boca. PVP: 19€

Giz Vinha das Cavaleiras Tinto 2016 - Baga | 1400 garrafas. Produzido de uma vinha centenária, muito velha, a Vinha das Cavaleiras de apenas 2 hectares. Aroma ultra fino, muito complexo, contido, com laivos de calcário, fruta, especiaria, tudo com grande classe. Na boca, muito sedoso e envolvente, quase mastigável, com enorme elegância. Corpo médio, enorme acidez e frescura e um enorme prazer. Um vinho em constante mutação no copo, com final muito longo e de potencial enorme em garrafa. Rivaliza seguramente com um grande Borgonha. Delicioso e diferenciador! PVP: 27€

Sérgio Lopes

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Momentos á volta do vinho – O Leitão e as Bageiras, de improviso

Com a passagem na TV, há pouquíssimos dias, de uma peça dedicada à familia Bageiras, encabeçada por Mário Sérgio Alves Nuno, recupero um texto que escrevi para a revista Paixão pelo Vinho, onde Bageiras e Leitão do mugasa, foram os protagonistas desta minha memória. Já lá vão alguns anos, não me recordo da data exata, estava eu a vir de Lisboa para o Porto, nesse dia e a minha irmã estava deslocada em Abrantes, em trabalho, sem carro. Nesse mesmo dia, o meu cunhado fazia anos. Ainda não havia filhos… e, de repente lembrei-me, porque não fazermos um jantar e comemorar o seu aniversário com um belo leitão à Bairrada? Afinal de contas, íamos chegar ao Porto, ainda a tempo do jantar. E ficava a caminho… Toca a ligar para o Mugasa, restaurante situado na Anadia, mais propriamente em Fogueira (Sangalhos) e encomendar um leitão à maneira. A primeira parte, estava conseguida. Faltava agora o espumante para acompanhar o belo do leitão… Como vamos fazer? O primeiro nome que surgiu foi naturalmente Mário Sérgio Nuno – produtor bairradino e ali ao lado, também em Fogueira, ao qual liguei de imediato e pedi para me arranjar uma caixa do fabuloso espumante Quinta das Bageiras Grande Reserva Bruto Natural 2003. Tínhamos estado nas Bageiras há pouco tempo e provado esse fabuloso espumante! O Mário Sérgio disse logo: “não te preocupes, Sérgio, eu entrego-o no Mugasa e levas isso fresco para o Porto…”. Depois de apanhar a minha irmã, em Abrantes, lá seguimos, rumo ao Mugasa, enquanto no Porto, a minha miúda, se encarregava de providenciar o bolo de aniversário. Não queríamos que faltasse nada, neste aniversário de improviso.

Chegados ao Mugasa, a Dona Helena, lá nos mostrou o “bichinho”, pequeno como sempre e com excelente aspeto, acabadinho de sair do forno, superiormente assado pelas sábias mãos do Ricardo. Que maravilha! À nossa espera, estava também um balde de plástico, daqueles que levam banha de porco para assar o leitão. Em vez de banha, o balde continha camadas de gelo a cobrir as garrafas de espumante que o Mário Sérgio tinha entregue no restaurante. Que categoria!

Ainda houve tempo para a Dona Helena cortar superiormente o Leitão (não é cortado de qualquer maneira), enquanto nos explicava com o carinho e doçura que a caracterizam, como se faz. Lá seguimos viagem, eu, a minha irmã, o balde com as garrafas de espumante e o leitãozinho assado à moda da Bairrada, com um aroma inebriante a acompanhar-nos todo o caminho. Quanto ao jantar, ficou na memória de nós os quatro, em particular do meu cunhado, que até ao dia de hoje continua a dizer “foi o melhor leitão que comi e o melhor espumante que bebi. Que grande aniversário!”. Ah, e sem molho, pois o verdadeiro leitão, não precisa de molho a acompanhar. São estes momentos, que perduram nas nossas memórias, que nos apaixonam pelo vinho. Um brinde a momentos de felicidade e partilha!

Sérgio Lopes , in Revista Paixão Pelo Vinho

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Em Prova: Alambre Moscatel 20 anos


Este vinho já é um clássico no que concerne a Moscateis de Setúbal. Da José Maria da Fonseca , produzido pelo talentoso enólogo Domingos Soares Franco, é uma referência de qualidade e consistência ano após ano. O Alambre 20 Anos é elaborado a partir da casta Moscatel, constituído por um lote de 19 colheitas em que a colheita mais nova tem pelo menos 20 anos e a mais antiga perto de 80 anos, resultando num vinho complexo, aromático, elegante e com um longo final de prova. É companhia frequente cá em casa, mas recentemente provei-o às cegas no concurso de vinhos Grandes Escolhas onde foi o vinho vencedor na categoria generosos, recebendo uma honrosa e merecida medalha Grande Prémio Escolha da Imprensa. E de facto, esta última edição está com um equilibrio fenomenal entre doçura e acidez, acrescentando uma definição de pureza do lado citrino tipico da casta notável. Notas caramelizada, café e fruto seco, completam um bouquet que tem tanto de complexo como elegante. Uma delicia e uma tentação. Grande Moscatel! PVP: 25€ (0,5cl). Garrafeiras.

Sérgio Lopes

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Em Prova: O Negra Mole de João Clara

João Maria Alves, conhecido por todos como João Clara era produtor de uvas desde os anos 70, as quais entregava à Adega Cooperativa de Lagoa. Mais tarde, passa o testemunho ao seu filho que em 2006 lança o primeiro vinho desta quinta, um tinto João Clara em homenagem justamente ao seu pai. Hoje em dia, com enologia de Joana Maçanita o projeto conta com uma gama alargada de vinhos -  "às claras" (entrada de gama -  branco, tinto e rosé) e João Clara, branco, rosé, tinto, reserva tinto e os monocasta Alvarinho, Syrah e Negra Mole. 

E é neste último vinho, que pegando numa uva autóctone da região, que apresenta cachos com uvas de tonalidades mais e menos intensas, que realmente se diferencia. O João Clara Negra Mole 2015 resulta num vinho de cor aberta, com fruta vermelha entre o fresco e alguma passa (o que é curioso), num aroma muito bonito e fresco. A boca é de taninos elegantes, com boa acidez e pouco corpo, num registo leve, apetecivel e que se torna muito fácil de beber. Um tinto fresco e com pouca extracção, mas com complexidade. Pena apenas o preço um pouco inflacionado à semelhança do que se pratica na generalidade dos vinhos da região Algarvia. PVP: 20€. Garrafeiras.

Sérgio Lopes

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Arena de Baco: QM, QM Nature e QM Vinhas Velhas

A Quintas de Melgaço nasce em 1990, personificada por um melgacense emigrado no Brasil, Amadeu Abílio Lopes, cuja capacidade financeira foi suficientemente forte para congregar à volta deste projecto o interesse de algumas centenas de produtores do concelho de Melgaço, que haviam de se tornar accionistas. Actualmente são mais de 400 os accionistas. 

O Alvarinho é naturalmente o centro da empresa e a grande dsitribuição sempre foi uma aposta. Quem não conhece o entrada de gama Torre de Menagem, onde o Alvarinho combina com a Trajadura, disponível em qualquer superfície comercial, a um preço de arromba? 

No entanto, a diversificação foi um caminho seguido nos últimos anos, produzindo também espumantes e até um colheita tardia, todos de alvarinho e diferentes referências de vinho Alvarinho que com a chegada do enólogo Jorge Sousa Pinto (Regueiro, Sem Igual) elevou a qualidade geral de uma forma evidente. 

Provamos a gama de vinhos brancos QM, à excepção do topo de gama Homenagem, que brinda os 20 anos de existência da Quintas de Melgaço: 

QM Alvarinho, clássico vinho branco com as notas tropicais misturadas com alguns citrinos, mostrando-se fresco e muito equilibrado, sem excessos de doçura. Um excelente exemplar de um branco da região, agora ainda mais afinado sob a batuta de Jorge Sousa Pinto. Um valor seguro que pode ser encontrado facilmente nos hipermercados Continente a rondar os 8,50€.


QM Nature, a pretender mostrar uma vertente mais pura e natural da casta, como o proprio nome o indicia. Um vinho com nariz muito complexo com as notas minerais em primeiro plano, a conferir-lhe uma certa austeridade, fugindo dos aromas exuberantes primários, sem deixar de apresentar fruta citrica e de caroço, mas num registo mais contido. Boca tensa, seca e muito fresca, com final longo e prazenteiro. Confesso que gostei bastante.Muito nervo e acidez, mesmo a meu gosto. . 17,50€. Garrafeiras.


QM Vinhas Velhas, Oriundo de vinhas de encosta, em solos graníticos, das vinhas mais antigas, com mais de 20 anos. É um vinho muito complexo e fino, com fruta citrina muito precisa e definida. Boca com muita elegância, toque mineral, de novo fruta muito apetecivel, leve floral, denso e muito longo. Uma delicia. E com enorme potencial de envelhecimento. Um belíssimo alvarinho. 15,95€. Garrafeiras.

Em suma, um projeto consolidado e que com a adição dos QM Nature e Vinhas Velhas ganhou uma outra notoriedade e deu um salto qualitativo. Por um lado, Jorge Sousa Pinto tornou o Torre de Mengem ainda bem mais abrangente e comercial (volume), enquanto que por outro lado, elevou em muito a qualidade da gama QM - gama mais alta, o que naturalmente se saúda.

Sérgio Lopes

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Radar do Vinho: Bota Velha

O projeto Bota Velha marca o lançamento dos primeiros vinhos a solo do enólogo João Silva e Sousa. Com quase 30 anos de carreira, João Silva e Sousa foi antigo produtor do vinho do Porto Offley, Director Técnico de todas as Vinhas da Sogrape em Portugal e criou a empresa de vinhos, a VDS, que vendeu em 2005, para além de sempre ter dado apoio e consultoria a várias empresas do setor. Em 2017, decide montar a sua própria adega na Penajoia e contactou produtores de uvas no Douro Superior e Cima-Corgo, seus conhecidos de sempre, que o apoiaram neste seu novo projecto. 

A imagem dos vinhos é muito apelativa e o nome tem tudo a ver com o Douro, ou seja, o mote de gastar as botas “à procura das vinhas antigas do Douro”. Botas, deliberadamente velhas, porque João sabia da rudeza do terreno – à procura de vinhas antigas, repletas de castas de outrora e dos donos, seus conhecidos. O ContraRotulo provou os vinhos:


Bota Velha Colheita Branco 2017, Malvasia Fina, Viosinho, Gouveio, Rabigato, Códega do Larinho, Arinto. Nariz mineral, fruta de caroço tipo maçã verde, algum herbáceo e floral. Fresco. A Boca confirma o nariz. Corpo médio. Final correto. Muito equilibrado. €6,90

Bota Velha Colheita Tinto 2017, Touriga Franca, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Amarela e Tinto Cão. Fruta vermelha e preta. Especiado. Balsãmico. Cheira a Douro! Na boca apresenta alguma rusticidade, boa definição de fruta fresca, corpo e final médio. Equilibrado, fresco e leve. 6,90€


Vinhas Antigas Branco 2017, Maior intensidade e complexidade aromatica que o colheita, com notas frutadas e florais. Nariz muito mineral. Bom volume de boca, de corpo médio e com muita frescura. Acidez crocante. Final longo. Um vinho que apetece beber. Muito bem. 13,90€.

Vinhas Antigas Tinto 2017, fresco com notas lácteas e muita fruta preta de bosque. Boa estrutura, com densidade, mas sempre com pouca extração e taninos firmes, mas finos o que o torna fácil de beber com prazer. Intenso, apesar de lhe faltar aquela maior estrutura que muitas vezes associamos a vinhas velhas duriense. Excelente companheiro à mesa. 13,90€.

Em suma, um belo projeto a solo de João Silva e Sousa, onde os Bota Velha colheita se mostram vinhos muito corretos, enquanto os Vinhas Antigas são as verdadeiras "estrelas da companhia" e creio que crescerão em garrafa.

Sérgio Lopes

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Novidade: Terrunho Alvarinho 2017


José Domingues é um enólogo da região de Monção e Melgaço, que há vários anos tem créditos firmados na região, trabalhando com mestria a casta Alvarinho. Projetos como a Provam (Portal do Fidalgo; Vinha Antiga), a Quinta de Santiago, onde esteve na génese do projeto, ou mais recentemente o Solar de Serrade, onde aceitou o desafio de potenciar esta marca tradicional da região, dando ainda apoio a pequenos produtores, aqui ou ali. É um homem generoso, humilde e que sempre teve o sonho de lançar o seu vinho  em nome próprio.

Ora, ele aqui está - o Terrunho "land & soul" 2017, feito exclusivamente de alvarinho e que pretende ser a visão do enólogo sobre o terroir (Terrunho) da sub-região de Melgaço e Monção. As uvas provêm de parcelas plantadas em encosta a 225 metros de altitude, com influência marítima, exposição protegida entre dois vales e o terroir singular de Monção. Apenas 10% do vinho passa por madeira, com 7 meses de estágio sobre as borras totais e 5 meses de battonage.

O resultado é um vinho branco, alvarinho, que entra diretamente para o grupo do que de melhor se faz na região. Nariz muito mineral, puro e afinado, complexo, com notas frutadas citrinas, algum vegetal, salinidade e muita frescura. Boca séria, com precisao, madeira superiormente integrada que eleva a casta Alvarinho e lhe confere um optimo volume de boca, apesar de elegante. Acidez crocante e untuosidade, num final seco e longo. Grande estreia! Apenas 3000 garrafas e 50 magnums produzidas. PVP: 22€. Disponibilidade: Garrafeiras.

Sérgio Lopes