sábado, 31 de março de 2018

Um copo com... Paulo Ramos

A Quinta de Paços é uma empresa familiar detida pela mesma família há mais de 500 anos que explora um património agrícola de 200 hectares, dos quais cerca de 20 ha de vinhas. Procura produzir vinhos de alta qualidade com uma personalidade distinta, colocando um especial ênfase no seu caracter natural e autêntico. As suas duas principais explorações são a Quinta de Paços (Barcelos) e a Casa do Capitão-mor (Monção). Paulo Ramos é um dos rostos por trás do projecto, em conjunto com o seu pai.. Natural do Porto, mas minhoto de coração, licenciado em Relações Internacionais. Vive entre o Porto e Barcelos. 

Olá Paulo, o que consideras diferenciador nos vinhos da Casa de Paços?  O nosso lema é fazer “Vinhos autênticos com uma personalidade distinta”. Aliamos isso a alguma inovação, como termos sido um dos pioneiros no uso de barricas na fermentação e estágio de técnicas como a batonnage na região ainda nos anos 90. Fizemos, em 1996, o primeiro lote de Alvarinho e Loureiro na região, agora muito em voga. Mas o nosso ainda é diferenciado por ser um blend de Alvarinho de Monção com Loureiro de Barcelos. Fazemos um monocasta de Fernão Pires no Minho, e um vinho verde Loureiro “novo” para o Japão. Este ano teremos algumas novidades de que falaremos mais à frente. 

E na região dos Vinhos Verdes? Nós produzimos vinho desde o séc. XVI e ganhamos prémios internacionais (1876, EUA dos vinhos de Barcelos e em 1888 na Alemanha dos vinhos de Monção) antes de sequer existir a designação “Vinho Verde”. Esta é das poucas regiões que adoptam uma designação de um tipo/perfil de vinho por oposição a um nome de um território. Isto ainda é difícil de explicar a muitos estrangeiros. Na DOC Vinho Verde, o que se tem proposto é um conceito de vinho leve, jovem, para beber cedo, que é a antítese da maior parte dos vinhos da Quinta de Paços. Os vinhos verdes têm uma boa notoriedade e posicionamento claro em muitos mercados, mas que leva a que se esperem da região, vinhos baratos de consumo rápido. Isso torna-os perigosamente próximos de vinhos como o Lambrusco. Seria bom vermos o que aconteceu com os vinhos brancos alemães e austríacos em termos de posicionamento de qualidade/preço para vinhos com perfis semelhantes aos nossos. O grande desafio é a criação de valor e o aumento progressivo e sustentado dos preços. Acho que a CVRVV já assumiu que esse é o caminho. Mas já existe um bom número de produtores que tentam acrescentar valor aos vinhos da região. A recente valorização da sub-região Monção-Melgaço é igualmente um excelente exemplo. Espero que possa ser esse o caminho, agora alargado às demais sub-regiões. Até porque em regiões como Bordéus, o que aparece no rótulo são as suas sub-regiões. Um Chateau Mouton-Rothschild apenas indica “Paulliac” (a sub-região) no rótulo. 

Os teus vinhos assentam também em monocastas. Qual a casta rainha em Portugal, na tua opinião? Só para falar das brancas, temos várias “Rainhas” e muitas “Princesas”, mas depende da região, ou do território (ou terroir). Obviamente que em Monção-Melgaço será a Alvarinho. No resto do Minho para além desta temos a Loureiro, a Avesso em Baião, só para nomear algumas. Temos também excelentes castas como a Antão Vaz no Alentejo ou o Encruzado no Dão. Depois algumas são transversais a quase todo o país quase sempre com bons resultados como a Arinto, a Fernão Pires/Maria Gomes. Uma casta de que gosto muito e que é, por vezes, pouco valorizada é a Moscatel Galego Branco da qual vou lançar dois vinhos este ano (um branco seco e uma vindima tardia). Vão ter de sair com selo do IVV porque, apesar de ser uma casta portuguesa, não é admissível nem para “Vinho Regional Minho” (enquanto que a Sauvignon Blanc e a Semillon são permitidas). 

Os teus vinhos são quase todos gastronómicos, sem gás e com uma acidez elevada. Belos brancos. Como coabitam numa região que produz também vinhos fáceis, leves e por vezes muito baratos? Por vezes com dificuldade. Tentamos explicar que são “verdes” diferentes, com outra abordagem. Por isso classificamos muitos dos vinhos que até podiam ser “DOC Vinho Verde” como “Vinho Regional Minho”. A questão do gás é das poucas coisas em que não transijo. Já nos anos 70 os nossos vinhos que eram feitos para consumo familiar não tinham gás. Adicionar gás artificial é que não faz sentido para nós. Em relação à acidez dos nossos vinhos, esta até nem pode ser considerada elevada. Os nossos vinhos andam entre os 5.5g a maior parte anda nos 6.5g e é raro ultrapassarem os 7g de acidez fixa. Temos inclusive vinhos com uma acidez mais baixa, como o Fernão Pires, dirigido para um mercado que prefere vinhos mais macios. Até porque existe a falsa noção que os vinhos verdes são muito ácidos, o que já não é assim. Temos sim é características de frescura e mineralidade dadas pelos solos graníticos (ricos em quartzo em Barcelos e de Calhau rolado em Monção). Os nossos vinhos são gastronómicos, e pensados enquanto tal. A maior parte do consumo de um vinho ainda é feito para acompanhar uma refeição. Mas também fazemos uma linha de vinhos que se bebem bem sozinhos, como o Rosé, o Fernão Pires, e o a que chamamos o Loureiro “Novo”. Este vinho foi feito inicialmente só para o Japão para chegar lá na altura do Beaujolais Nouveau, e que sido agora alargado a outros mercados. 

O que gostas de fazer nos tempos livres?  Responder a perguntas interessantes como estas sobre os nossos vinhos (aqui estou a dar graxa ;-) . Mas igualmente sou um melómano e cinéfilo e também adoro ler romances (por oposição ao que tenho de ler para preparar aulas). 

Se tivesses possibilidade de jantar com uma personalidade, levando um vinho dos teus, quem seria? Talvez o Francis Ford Coppola, assim falava de vinho e de cinema ao mesmo tempo (e a ver se me dá dicas de como passar de produtor de vinho/professor universitário a realizador de cinema). 

Qual o melhor vinho que alguma vez provaste? É sempre difícil dizer. Os que bebi enquanto adolescente que me marcaram: Barca Velha ou Vega Sicilia Único. Nos finais dos anos 90 fui algumas vezes com o meu pai à Vinexpo em visita de estudo só para provar coisas diferentes e abrir horizontes. Depois tenho a sorte de, na Pós-Graduação em Enologia da UCP-ESB onde dou aulas, me “colar” às sessões de provas do meu colega e amigo Bento Amaral onde se provam coisas muito interessantes. 

Bebes vinho de outras regiões? Não sou “enoxenófobo”. Bebo sobretudo para experimentar coisas diferentes, não só de Portugal, mas também estrangeiros. 

Conta-nos uma peripécia que tenhas vivido no mundo dos vinhos. A minha iniciação ao mundo do álcool. Foi feita pelo meu padrinho e tio-avô, que era o dono da Quinta de Paços, que me disse para molhar o dedo e provar a aguardente acabada de destilar. Obviamente não quis dar parte de fraco, fiz uma expressão de satisfação, e tentei logo voltar a molhar o dedo… mas ouvi logo um “nem penses!!!”. E nem vou revelar que idade tinha. 

Momento: Refere uma música preferida; local de eleição e companhia; e claro vinho a condizer. Música: não consigo escolher uma, gosto demasiado de música para escolher só uma. Local: na Quinta de Paços. Companhia: família e amigos e convidados nossos. Vinho: os meus porque é sempre bom poder explicar a abordagem por detrás de cada um deles e ouvir a opinião sobre os mesmos. 

O vinho verde é só para beber no Verão ;-) ? O “Verão” é quando o homem quiser… Mas bebam Vinho Verde, Vinho Regional Minho, Monção-Melgaço, Cávado… Quando lhes apetecer e souber bem, e com a comida que acharem melhor!

Sérgio Lopes

sexta-feira, 30 de março de 2018

Radar do Vinho: 100 Hectares

100 Hectares é uma marca recente que surgiu no mercado em 2009, fruto da vontade dos irmãos Filipe e André Bras em produzir vinhos de elevada qualidade. O nome provém da dimensão de vinha que a familia possui, cerca de 100 hectares distribuidos por várias propriedades à volta do Peso da Régua (Douro). 

Há muito que as suas uvas eram vendidas a grandes empresas produtoras de vinho de mesa e vinho do Porto, da região, mas como tantos outros produtores, decidiram criar a sua marca própria. Contrataram o enólogo Francisco Montenegro (Aneto, Quinta da Chinchorra, Quinta do Arcossó) e criaram a marca 100 Hectares, conseguindo logo no 1º ano de produção grande hype com um reserva branco, um tinto guloso e um grande reserva, cuja produção foi vendida exclusivamente a um restaurante de Vila Real. Para além da qualidade do vinho, que temos tido a oportunidade de provar, é também curiosa a escolha da fonte tipográfica, nada usual e dos elementos gráficos e cores utilizadas, criando rótulos diferentees e muito apelativos. 

9 anos depois o portfolio da marca é já muito abrangente, entre colheita branco, tinto e rosé, monocastas Códega de Larinho, Viosinho, Touriga Nacional e Sousão, 100 Hectares Filigrana, Superior, Collection, Vinhas Velhas e Grande Reserva. Um extenso portfolio, com cada referência representando um perfil de acordo com o gosto dos irmãos Bras.

Os vinhos são de uma qualidade irreprensivel, e daqueles que provei no conforto do lar (não foram todos), com uma boa comida a acompanhar (sim, são gastronómicos e precisam de comida), destacaria os seguintes:


100 Hectares Filigrana. A menção refere-se à tradição familiar que existe na arte filigrana e uma homenagem à mesma. E nesse sentido, temos um vinho muito bonito, de cor rubi definido, com um aroma intenso e imediatamente apelativo, cheio de fruta preta madura e algum tostado. Apetece logo beber. Na boca é guloso, focado na fruta, complexo, com especiarias e chocolate, tudo num registo fresco e muito sumarento. delicioso. Foi um sucesso ao almoço em casa dos meus pais. Todos adoraram o vinho! PVP: 15,50€.

100 Hectares Sousão. 100 % feito de Sousão, que na região dos vinhos verdes se denomina Vinhão. E de facto, lembro-me perfeitamente quando o provei, da cor carregada que apresentava (como os verdes tintos) e do aroma intenso, de novo, imediatamente apelativo, cheio de fruta fresca. Depois, na boca é exuberante,  jovem e com uma belíssima acidez, apetecendo beber mais um copo. Um vinho com um belo corpo e uma grande frescura, mas uma "leveza" aparente, que o torna desconcertante. PVP: 13,60€.


100 Hectares Grande Reserva. Aqui temos um vinho mais próximo do que o Douro normalmente produz, nos grandes vinhos. Ou seja, estamos num registo mais clássico, mas sem descurar a componente da fruta "bonita", comum a todos os vinhos 100 Hectares. Um vinho que precisa de mais alguns anos para se mostrar em pleno. Complexo, com aromas entre especiarias, fruta vermelha e preta, algum chocolate. Boca com taninos firmes, corpo potente e final longo. Companheiro perfeito de um belo assado no forno, por exemplo. Grande potencial de envelhecimento. PVP: 17,60€.



100 Hectares Collection. O Collection reflecte a selecção das melhores uvas de cada ano. Na colheita de 2013 a escolha recai no blend Touriga Nacional e Tinta Amarela, com estágio de 18 meses em barrica de carvalho francês. O resultado é um vinho extremamente complexo, de cor carregada e aroma onde predominam especiarias, fruta preta e vermelha e algum cacau. A boca é imponente, mas com finesse. Apesar de se sentir o calor duriense, a frescura nunca deixa de estar à frente. Termina bem longo. A precisar de tempo para se mostrar em toda a sua plenitude. Menos de 3000 garrafas produzidas. PVP: 20,90€

Um projeto a reter e acompanhar bem de perto!

Sérgio Lopes

quarta-feira, 28 de março de 2018

Em Prova: Marquês de Marialva Espumante Bical & Arinto Reserva Bruto 2014


Este espumante da Adega de Cantanhede, feito por Osvaldo Amado está realmente bem posicionado, entre o "normal" (<5€) e o Grande Cuvée 2011, que é uma delicia -  by the way, mas já custa mais de 15€. Feito de Bical e Arinto em partes iguais, o  Marquês de Marialva Espumante Bical & Arinto Reserva Bruto 2014 apresenta um cor citina esverdeada, com bolha fina. O nariz mostra um lado citrino evidente com algum fruto seco à mistura. Na boca, apresenta uma mousse crocante, confirmação do lado citrino e mostra-se muito fresco, terminando bem agradável. Uma excelente proposta, abaixo dos 10€. PVP: 8€. Disponibilidade: Grandes Superfícies.

Sérgio Lopes

segunda-feira, 26 de março de 2018

Em Prova: Herdade dos Grous Moon Harvested 2014

Herdade dos Grous Moon Harvested 2014, deve o seu nome pelo facto de a vindima, feita manualmente, ocorrer "durante o ciclo de maior influência pela lua no transporte da seiva da videira", o que lhe confere características únicas. 100% produzido da casta Alicante Bouschet, que tão bem se dá no Alentejo, fermenta em lagares e estagia 12 meses em barricas novas de carvalho Francês. Trata-se de um  vinho com uma cor rubi muito bonita, muito complexo no nariz, com fruta madura, especiarias, mas sobretudo uma enorme frescura. A boca é aveludada, com taninos redondos e um ótimo volume de boca. A madeira aparece bem integrada, arredondando o vinho. Elegante. termina longo e muito prazeroso. Se o objetivo era produzir um grande vinho, nitidamente foi conseguido. Acompanhou na perfeição uma costela mendinha assada. Que delicia! PVP: 25€. Disponibilidade: Garrafeiras e Grande Superfícies.

Sérgio Lopes

sexta-feira, 23 de março de 2018

Em Prova: Rascunho by Quinta de Santiago 2015


Rascunho nasce, segundo a produtora Joana Santiago, da vontade de experimentar, de ousar de fazer diferente, enfim, de produzir um vinho fora do perfil habitual da casa - tipicamente alvarinhos bonitos, finos e perfumados (e também um rosé muito interessante). O Rascunho é também 100% fe alvarinho, de Monção e Melgaço,  de 2015, mas lançado apenas agora em 2018, resultado de uma micro vinificação experimental, em balseiro de carvalho francês, de 2000L ,com estágio sobre borras totais, com battonage constante por 9 meses. O tempo em garrafa fez o resto, tornando o vinho muito mineral, fresco, com alguma austeridade, belo corpo e uma grande acidez que lhe confere uma grande profundidade. Um grande alvarinho, cheio de força, do qual foram apenas produzidas 600 garrafas, numeradas e rotuladas à mão em rótulo de papel. Um verdadeiro vinho de garagem! PVP: 24,5€. Disponibilidade: Garrafeiras.

Sérgio Lopes

quinta-feira, 22 de março de 2018

Em Prova: Head Rock Grande Reserva Tinto 2015


Head Rock é um projeto de Trás-Os-Montes, sendo que o nome se deve à pedra com o formato de uma cabeça, existente no local e que podemos ver reproduzida nos rótulos. Sendo um projecto recente, o produtor Carlos Bastos (que também participa na enologia) tem buscado o perfil ideal dos vinhos, sempre respeitando o terroir e o ano de colheita. Depois de Francisco Montenegro nos primeiros anos, o enólogo responsável é agora Pedro Pimentel. Com a estabilização da gama, surge o melhor vinho produzido até à data, o Head Rock Grande Reserva Tinto 2015, um salto qualitativo evidente. Um vinho extremamente complexo, fechado ainda, à espera do tempo de garrafa para se mostrar em todo o seu esplendor. Tem uma certa "rusticidade" própria do terroir e respeitando a tradição, mas também uma profundidade, corpo e frescura que faz deste, um grande vinho. Fruta preta, madeira bem integrada, pendor gastronómico e com grande potência, sem deixar de ser elegante. Com elevado potencial. Para acompanhar a sua evolução. PVP: 19,90€. Disponibilidade: Garrafeiras.

Sérgio Lopes

segunda-feira, 19 de março de 2018

Em prova: Quinta da Caldeirinha Aragonês 2010

A Quinta da Caldeirinha encontra-se localizada em Almofala, uma aldeia histórica, de Figueira de Castelo Rodrigo, integrada no Parque Natural do Douro Internacional. É pois pertencente à região da Beira Interior

Os vinhos produzidos nesta quinta são de agricultura biológica, plenamente certificada e praticada há 17 anos. A aposta é nos monocasta - Touriga Nacional, Aragonêz (ou Tinta Roriz), Cabernet Sauvignon e Syrah, mas também é produzido um vinho de uma vinha muito velha e de produção muitissimo reduzida.

Provado o Quinta da Caldeirinha Aragonês 2010, este fim-de-semana, trata-se de um vinho com uma cor carregada e com um aroma muito bonito e complexo, cheio de fruta fresca, tal como amoras ou framboesas, entre outros aromas mais vegetais e alguma especiaria. A boca apresenta boa estrutura, taninos suaves e de novo foco na fruta e algum vegetal que lhe confere pendor gastronómico. Termina de agradável persistência.

Um "bio" que não parece nada "estranho", pelo contrário, bebe-se com muito agrado, quer pelo seu lado frutado, quer pelo bom comportamento à mesa. 

PVP: 16€. Disponibilidade: Restauração.

Sérgio Lopes