quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Um copo com... Ivone Ribeiro

Ivone Ribeiro é a proprietária da Garrafeira Garage Wines. No mundo vínico é uma cara bem conhecida de todos nós, com passagem por espaços como a Vinho e Coisas ou a Wine O’Clock. Após uma experiência na distribuição, abriu o seu espaço dedicado aos vinhos de garagem. As suas provas temáticas são já lendárias, sempre num ambiente descontraído e de partilha de sensações. Natural do Porto, licenciada em gestão de marketing, vive no Porto.

Olá Ivone. Tenho que começar pelas tuas provas vínicas, que continuam a ter casa cheia, e despertaram várias pessoas para este mundo dos vinhos, eu incluído. Foi o inicio, o despertar da paixão á volta do vinho. Como te sentes nesse papel pedagógico e de influência tão marcante para alguns de nós? O meu papel no mundo dos vinhos é simples…. Não sei se sou uma referência, a única coisa que sei é que adoro vinho, adoro o meu trabalho e adoro partilhar essas experiências com os meus clientes e amigos. O mundo do vinho é por defeito, para muitos consumidores, algo complicado, elitista… mas para mim o vinho tem que ser aquilo que tenho vindo a defender nos últimos anos: 1. Algo maravilhoso, que deve ser partilhado, com uma linguagem mais simplista e que permita com maior tranquilidade cativar mais e mais consumidores. 2. As provas GW e que temos vindo a fazer é criar experiências e momentos que representem o que defendemos… temos tido algum sucesso. 

Das dezenas de provas, qual a que destacarias por um motivo especial que te tenha marcado?  Não consigo destacar nenhuma… mas há que referir que o Aniversário da GW é sempre a grande prova do ano, onde não olhamos às marcas, aos vinhos que estamos a beber (bem… são todos bons claro..), mas sim ao momento que criamos para presentear todos os nossos clientes e amigos…

Lembras-te da primeira vez que pensaste “eu vou trabalhar nos vinhos”? Não imaginava que um dia chegaria até aqui…. Tudo foi acontecendo e a paixão começou a crescer… é um mundo apaixonante, ao mesmo tempo competitivo e sempre com novos desafios

O que gostas de fazer nos tempos livres? Estar com os meus filhos… eles sofrem com o facto de ter uma loja, horários muitos cheios e claro…. Estou sempre a ouvir frases como esta “mãe porque não tens um emprego normal?”.

Se tivesses possibilidade de jantar com uma personalidade, levando um vinho da Garage Wines, quem seria? Marcelo Rebelo de Sousa… gosto muito dele, acho-o um verdadeiro “SENHOR”, um homem muito inteligente e sei que gosta de bons vinhos!

Qual o teu prato preferido? Só um…. Gosto de tanta coisa…. Passando a publicidade, O Empadão de Carne da minha mãe, o Arroz de Pato uma bela Sopa de pedra…

Conta-nos uma peripécia que tenhas vivido no mundo dos vinhos.  Tenho muitas, mas estava eu à pouco mais de 1 ano a trabalhar na “Vinho & Coisas” a primeira garrafeira onde trabalhei e um cliente “homem” ali na meia idade recusava-se a aceitar as minhas sugestões, ao ponto de ter que ligar ao António Nora, na altura meu administrador e o Antonio recomendar os mesmos vinhos. Confesso… eu adorei… o cliente ficou um pouco à rasca!!!

O que consideras diferenciador no nosso país em termos vínicos, vs. resto do mundo? As nossas castas sem sombra de duvidas… o nosso terroir poderá em algumas regiões ter características próprias, as barricas são iguais em todo o mundo, a enologia, um toque ou outro, mas as nossas castas são nossas…

Momento: Refere uma música preferida; local de eleição e companhia; e claro vinho a condizer?  Estilo música: Chill Out; local: a minha casa; vinho: Champagne…. 

Qual o melhor vinho que alguma vez provaste? Não consigo dizer….  Todos os grandes vinhos que provei tiveram o seu momento e foram sempre partilhados, porque para mim os grandes vinhos têm de ser partilhados...

Sérgio Lopes

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Radar do Vinho: Quinta do Estanho

Localizada em Alijó, situada na margem esquerda do Rio Pinhão, a Quinta do Estanho deve o seu nome ao mineral que aí proliferava. Empresa de cariz e raízes familiares, há várias gerações, o seu proprietário, entretanto desaparecido, Jaime Acácio Queiroz Cardoso, tornou-se no segundo Produtor – Engarrafador – Exportador de todo o Douro, vendendo os seus vinhos diretamente para os mercados nacional e internacional. Hoje, 30 anos depois, a Quinta do Estanho caracteriza-se ainda pelo seu cariz familiar, sendo reconhecida sobretudo pelos belíssimos Vinhos do Porto - Colheitas, Tawnies e Vintage, que estagiam e amadurecem, alguns deles há décadas... Mas dos vinhos do Porto falaremos noutra altura.

Na atualiade, para além dos vinhos do Porto a empresa iniciou um enfoque mais assertivo nos vinhos de mesa. No mercado estão três vinhos tintos, Colheita, Reserva e Grande Reserva de Vinhas Velhas, de 2015, que provamos. A enologia é de Luís Leocádio, jovem que entre outros projectos é o enólogo da Quinta do Cardo, na Beira Interior.
São vinhos que provêm de uvas a uma altitude entre 150m a 400m, com a tipicidade duriense bem patente, encorpados, com poder, e a reflectir um pouco o calor da região, embora Luís Leocádio consiga sempre os tornar nada extraídos. Vinhos de pendor gastronómico que precisam nitidamente de comida.

O Colheita é um vinho equilibrado, com fruta vermelha bonita, algum floral, taninos macios e corpo e final médio/longo. Perfeito para o dia-a-dia, embora se posicione num campeonato difícil (5€). O Reserva já é um pouco mais complexo e com maior potência. Tem tudo o que o colheita proporciona, mas num registo de maior profundidade. Um vinho que embora esteja pronto a consumir, vai crescer em garrafa. Alguma rusticidade patente, típicamente histórica na região. (10€). Por fim, o meu destaque, um vinho que claramente me encheu as medidas, o Grande Reserva Vinhas Velhas, proveniente de parcelas de vinhas plantadas entre 1932 e 1970. Foram produzidas apenas 1333 garrafas. Vinho de enorme complexidade e profundidade aromática, cheio de fruta preta e vermelha madura, especiarias, algum cacau e um ligeiro balsâmico. Boca volumosa, mas com taninos aveludados. Simultaneamente denso mas elegante, terminando muito longo e persistente. Belo vinho. (20€)

Na minha opinião, o caminho está encontrado. Acredito que Luis Leocádio irá ainda afinar mais o projecto (afinal de contas o passado são os Vinhos do Porto) e tornar os vinhos ainda mais equilibrados e frescos, sem perder a potência bem patente da região Duriense e do terroir da Quinta do Estanho.

Quinta do Estanho
Av. Dr.Porfírio Teixeira Rebelo, 1
Cheires, 5070-342 Alijó

info@quintadoestanho.com
+ 351.259686377
+ 351.259686283
+ 351.259685054/5/6


Sérgio Lopes

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Arena de Baco: Prova Vertical dos vinhos Morgado Santa Catherina

No ano de 2017 tive a felicidade de beber várias vezes este vinho - Morgado de Santa Catherina, feito 100% de Arinto, proveniente da zona de Bucelas e que se encontra facilmente nas grandes superfícies comerciais. Um vinho que tem estágio em madeira nova e que aguenta bem a passagem do tempo, melhorando com 3 a 4 anos de garrafa (ou mais). Foi por isso natural que eu e o Amândio Cupido (Garficopo) tendo adquirido várias garrafas de anos diferentes e com a ajuda adicional do produtor, preparamos uma prova vertical, dos anos 2010 a 2016, com um vinho de 2004 de acréscimo, que o Cupido tinha comprado. 


Considero as provas verticais muito interessante, mas a condição de guarda de cada um dos vinhos é fundamental para haver justiça no veredicto final. E a maior parte das garrafas foram adquiridas na cadeia de supermercados do malogrado Belmiro de Azevedo, pelo que é importante efectuar esta ressalva. De qualquer das formas, à excepção do 2004 que já tinha passado o seu melhor momento, todos se apresentaram em boa forma. Alguns mesmo em belíssima forma.


Começamos a prova do mais novo, para o mais antigo (outra discussão sempre interessante neste tipo de prova), com o 2016 ainda bastante fechado (estágio de garrafa - enviada pelo produtor), mas a demonstrar que o uso da madeira está mais comedido. Vamos ver como evoluirá. 2015, um dos preferidos, com a madeira bem integrada, enorme frescura, elegante, a precisar de tempo, mas a dar já uma belíssima prova. Comprar, beber e guardar. 2014 e 2013 num registo um pouco abaixo do 2015. 2012, o mais consensual em prova e também o mais equilibrado. Estava fantástico, com "tudo no sítio". 2011 de novo um pouco abaixo do 2012, menos fresco. Por fim, o 2010, cheio de força, uma enorme surpresa, ainda com muito para dar. Provavelmente o primeiro vinho onde apanhamos realmente notas de evolução, mas das boas...

Uma prova vertical a demonstrar a qualidade e longevidade destes vinhos, provavelmente o branco mais "escolha segura" na casa dos 10€, nas grandes superfícies. Uma prova superiormente harmonizada pelos maravilhosos cozinhados do Cupido, que infelizmente não temos fotos! Um jantar que se prolongou pela noite fora em ambiente de grande confraternização.

Sérgio Lopes

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Em Prova: Vida Nova Syrah Aragonês Tinto 2014

Provavelmente há quem não saiba, mas o cantor Cliff Richard, estrela da música do século passado é o homem por trás deste vinho. Proprietário da Quinta do Moinho, em Guia - Albufeira, no Algarve, tornou-se há mais de 10 anos produtor de vinhos naquela zona. 

O Vida Nova 2014 é um tinto produzido maioritariamente de Syrah (60%), conjugado de forma improvável com Aragonês (30%) e um toque de Alicante Bouschet (não mencionado no rótulo). O vinho estagia depois durante 14 meses em barricas de carvalho francês e americano. 

O resultado é agradavelmente satisfatório, com fruta preta fresca de qualidade, especiarias e alguma baunilha. A boca é de taninos redondos, com foco na fruta e uma boa acidez que lhe confere a frescura necessária para se beber um novo copo. Será um vinho consensual que não defraudará quem o levar para a mesa. Acompanhou muito bem um arrozinho de pato.  

PVP: 8€. Disponibilidade: Garrafeiras.

Sérgio Lopes

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Em Prova: Boango Tinto 2013

Vinho produzido pelo enólogo Hugo Oliveira e Silva, um jovem que lançou o seu projecto no Douro - Adega Artesanal - e que para além do Boango Tinto (de que aqui falo) e do branco, existe também o Oficios, um vinho de posicionamento superior. São sempre produções pequenas, com pouca intervenção por parte do enólogo, tentando privilegiar o terroir. A ideia será prolongar estas experiências para outras regiões.

Mas este Boango Tinto é um duriense de gema, com estágio de 24 meses em barrica. Foram produzidas apenas 2000 garrafas de um vinho guloso, cheio de taninos e algo rústico, a lembrar a região e o carácter tradicional da mesma. Um vinho para a mesa, a um preço combativo, para consumir sem pressas e ir acompanhando a evolução do projecto do jovem enólogo. 

PVP: 9€. Disponibilidade: info@adegaartesanal.com

Sérgio Lopes

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Da minha cave: Quinta do Boição Reserva Branco 2010

Situada em Bucelas, a Quinta do Boição espalha-se por uma área de 45 ha de solos argilo/calcários. destacando a presença da casta Arinto (naturalmente), nas castas brancas, que encontra em Bucelas o seu verdadeiro esplendor e a Touriga Nacional nas castas tintas. 

Gosto muito do arinto, e particularmente de arinto de Bucelas, sobretudo já com alguma idade. Foi por isso com muito agrado que provei o Quinta do Boição Reserva Branco 2010, um vinho com 8 anos, mas com uma grande frescura, onde pouco se notava a evolução do tempo em garrafa.

Mostrou-se untuoso, com citrinos maduros, complexo, mineral e persistente. Acompanhou um salmão grelhado com arroz de tomate na perfeição. 

Num dia que iria ser preenchido por vinhos de Bucelas (de que falarei mais tarde), pode-se dizer que foi um grande começo! PVP: 6,5€. Disponibilidade: Garrafeiras e Enoteca.

Sérgio Lopes

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Em Prova: Chryseia 2015

Ultimamente tenho voltado aos tintos com maior regularidade, talvez até porque me têm tratado muitíssimo bem, dando-me a provar e beber com uma boa refeição, grandes vinhos, que não deixarão ninguém indiferente. É o caso de, por exemplo, o vinho Chryseia 2015, que foi degustado num jantar de amigos onde fomos tratados como reis, pelo anfitrião Otavio, acompanhando este vinho um cabrito divinal, entre outras iguarias superiores. O vinho, que resulta da parceria entre o enólogo de Bordéus Bruno Prats e a família Symington, a partir da emblemática Quinta de Roriz, é um icon da casa, um vinho de topo que confirma todos os seu pergaminhos: Nariz fino e sedutor, muito complexo, com notas de fruta fresca deliciosa, um lado balsâmico e alguma especiaria. Tudo num registo de enorme finesse que se confirma numa boca de taninos sedosos, boa estrutura e muita frescura, tornando-o profundo e extremamente saboroso. Um grande vinho, este ano "mais pronto" e elegante, mas com um poder de evolução tremendo. Seda pura! PVP: 54€. Garrafeiras.

Sérgio Lopes