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sábado, 25 de junho de 2016

Opinião: Aprendendo e Partilhando - Chablis Sauvignon



Quando começamos a estar convencidos de saber alguma coisa sobre uma determinada região vínica, e digo região, pois nem por momentos me atreveria a pensar isso sobre o vinho em geral, eis que aparece um vinho à minha frente e me deixa siderado! Chablis e Sauvignon num mesmo rótulo?! Como é possível? É exatamente isto que torna este mundo dos vinhos tão maravilhoso, a enormidade de pequenas exceções como esta que nos deixa sempre surpreendidos e excitados.

Para perceberem o meu espanto têm de saber que a Borgonha em termos de castas brancas trabalha, quase em exclusivo, com a casta Chardonnay e que Chablis é talvez a sua sub-região mais famosa, mesmo não sendo a que produz os mais caros e conceituados vinhos desta casta na região. A fama vem-lhe curiosamente do novo mundo, em particular da América do Norte, onde o nome Chablis foi e ainda é usado para designar um vinho branco e seco de uma qualquer casta e que paradoxalmente nada se parecem com os vinhos de Chablis, quase impossíveis de replicar naquelas latitudes, pois são vinhos metálicos e minerais com uma acidez vibrante e cortante.

Apesar de a palavra Chablis não aparecer de uma forma ostensiva, está apenas numa espécie de selo no topo da garrafa, pensei que seria impossível ela aparecer em simultâneo com a palavra Sauvignon. Não é! E realmente não lhe é dado grande destaque que vai inteirinho para Saint-Bris o nome desta pequena AOC (similar ao DOC português), tendo ganho esse estatuto apenas em 2003. Era uma VDQS (similar à VQPRD) desde 1974 usando os vinhos a designação de Sauvignon de Saint-Bris. Uma designação ajustada pois, na minha investigação, descobri que nesta região se pode usar Sauvignon Blanc e Sauvignon Gris, uma mutação da primeira e que adiciona algum peso ao vinho. Descobri também a origem desta singularidade que vem já de tempos antigos, uma vez que até meados do século XIX a casta dominante era a Roublot, atualmente extinta, dizimada pela filoxera e não replantada depois por ser demasiado suscetível à doença.

Por tal foi, então, substituída pelas Sauvignon, muito provavelmente por causa do sucesso conseguido em regiões não muito longe dali, nos inícios do rio Loire, as agora famosas regiões de Sancerre e Pouilly-Fumé, que originam um vinho mais intenso e mineral que aquele que acabei por poder provar graças ao amigo Cupido, nome apropriado para nos dar a conhecer novos amores, o William Fevre Saint-Bris Sauvignon 2007, que apesar da idade se mostrou ainda perfumado e vegetal, num estilo muito francês, mas menos intenso e agressivo que o normal. Muito agradável e aconselhável.
Estava, no entanto, contente por isto não contrariar o que tenho dito nos meus cursos, ou seja, que se encontrassem a palavra Bourgogne num vinho branco, então a casta seria obrigatoriamente Chardonnay. Bom, parece que isso só será verdade em 99,99% dos casos uma vez que consegui encontrar um rótulo que continha a maldita palavra, foi apenas um, mas é o suficiente para me contradizer. Chatice, pois lá terei de pedir desculpa a todos os meus alunos, felizmente muitos e bons, começando por o fazer aqui. Me desculpem.

Hildérico Coutinho (Escanção / Sommelier)


sábado, 18 de junho de 2016

Opinião: Vinhos antigos ou vinhos velhos?

A discussão entre apreciadores de vinhos já não é de agora - O que é um vinho velho e o que é um vinho antigo? ou seja, quantos anos devemos esperar pela garrafa de vinho em cave, bem guardadinho e a evoluir (esperemos, bem), para que atinja o seu auge? Ora, penso que ninguém tem a resposta a esta pergunta, desde logo porque o comum dos mortais, não tem grandes condições de guarda em suas casas, quer em termos de temperatura ou humidade. Então o melhor é bebê-los logo? Também não. Pois aí, entramos no infanticidio dos vinhos, ou seja, que os bebemos cada vez mais cedo e que os produtores os colocam à venda cada vez mais cedo, significando isto que não dá para esperar. Por este andar, o ideal seria o produtor guardá-los em suas instalações, em condições, em teoria perfeitas,  até ao momento ideal de consumo, mas isso é comercialmente impossível, pois é preciso fazer $$$$$$ entretanto. E o consumidor, pouco instruído na matéria quer beber os brancos do ano e os tintos do ano anterior. São "mais frescos". Sim, mas menos complexos e na maior parte das vezes ainda não completamente integrados em todas as suas componentes. Bem, parece que estamos num impasse...

Confesso ser recente a descoberta dos vinhos antigos, para mim. Acho que é um processo. Ninguém começa pelo fim, certo? Dito isto, tenho gasto algum $$$$$$, bem mais do que algum $$$$$ na compra de vinhos com alguma idade, quer em garrafeiras / lojas, quer em leilões. A maior parte dos vinhos têm me saído bem e dão um enorme gozo ao bebê-los. Outros são mera curiosidade, de resistência ao tempo, já passaram o seu melhor momento e por isso, não dão muito prazer no copo. Finalmente, há aqueles que já foram de vez... imbebiveis, ou pelo menos não me dão qualquer prazer.

Depois há as regiões mais propicias a vinhos que evoluam de uma forma sempre positiva, casos da Bairrada e Dão, ou Colares e Buçaco - escolhas sempre seguras dirão os entendidos. Mas não há uma ciência exacta, pois por vezes encontram-se surpresas em todas as regiões, quer com brancos quer com tintos. Mas a questão das regiões fica para outra reflexão.

Fica para o final a opinião que tenho neste momento sobre os vinhos antigos: Eu não acho necessário comprar vinhos com mais de 20 - 25 anos, ou sequer guardá-los por tanto tempo. Não será seguro e não estou certo que se ganhe assim tanto... salvo claro os vinhos icónicos, que estão sempre top. Eu tenho para mim que à data de hoje, da década de 90 em diante é mais do que suficiente para comprarmos / guardarmos e potencialmente ficaremos deslumbrados por um vinho com idade. Seja um Bairrada de Pato, Bageiras ou Saima, por exemplo, ou um Dão dos Roques, ou um colares, ou um Buçaco, por exemplo, entre outros...

Para quê arriscar e beber um vinho "velho" quando esperaríamos beber um vinho "antigo"? E reparem que utilizei o termo velho apenas no final.

Sérgio Lopes

terça-feira, 7 de junho de 2016

Habemos...Casta!

Faz hoje um mês, que o blogger” Pingus Vinicus organizou, em conjunto com Luís Lourenço e José Lourenço, um evento denominado “Encruzado Day”.

Curiosamente, a ideia surgiu numa das redes sociais e confluiu num encontro de vontades em torno de uma das castas rainhas do Dão: a branca Encruzado.

Os promotores escolheram a Quinta dos Roques, situada em Abrunhosa de Baixo, concelho de Nelas, como anfitriã deste evento, para mostrarem as potencialidades da casta Encruzado.

Os amantes desta casta foram brindados com alguns dos melhores exemplares produzidos nos últimos anos. Sim, leram bem, dos últimos anos. Uma vez que, cada um dos produtores presentes no evento (Quinta do Serrado, Quinta da Fata, Quinta das Marias, Quinta dos Roques, Quinta dos Carvalhais, Quinta do Perdigão, Casa de Mouraz, Casa da Passarella, Quinta da Falorca e Quinta do Mondego), apresentaram verticais da casta que engarrafam.

Desta inédita forma de apresentação da casta, os participantes tiveram oportunidade de apreciar as particularidades que cada produtor imprime a esta casta, bem como, a capacidade intrínseca de envelhecimento.


No final da prova fico com a nítida sensação da enorme plasticidade que a casta Encruzado apresenta. Por um lado, quando jovem apresenta características para acompanhar bem a gastronomia portuguesa. Por outro lado, a capacidade de envelhecimento é bem evidente, valendo a pena esperar uns anos pelo prazer que dá depois de passar uns anos em garrafa.

Habemos...Casta!

Paulo Pimenta

sábado, 4 de junho de 2016

As garrafas de vinho medem-se aos palmos?

O título parece um pouco parvo...

Já em relação aos vinhos fortificados, sejam loiros ou morenos, faz todo o sentido fazer meias garrafas. Sejam Tawnies com indicação de idade, sejam LBV’s ou Vintages, complementam bem uma refeição onde estejam quatro a seis pessoas. 

Aqui, apresento um Quinta do Infantado 10 anos em meia garrafa. João Roseira, com Luís Soares Duarte e Fátima Ribas a desenharem um dos bons Portos de dez anos. Um dos meus preferidos e que neste formato sai pouco mais caro que um Porto “normal” (custa cerca de sete euros e meio no Jumbo) e acreditem, dá muito mais prazer a beber. Temperatura correta, bons copos (experimentem uns copos ditos para vinhos de mesa brancos) e isso faz toda a diferença…

Os bons vinhos de mesa, quando engarrafados em Magnum, evoluem melhor. Naturalmente e em geral uma Magnum custa mais do dobro de duas garrafas “normais”. Nada de estranho, já que toda a embalagem sai mais cara. 

Este Duorum Vinhas Velhas 2007 foi o primeiro da parceria de João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco, com o precioso contributo de João Perry Vidal. É um grande vinho do Douro Superior e neste formato, brilhou. 

Para um consumidor normal, daqueles que bebem o mesmo vinho todos os dias, abrir uma Magnum pode parecer palerma, embora se vejam vinhos de consumo imediato a ser enfiados neste formato. Não percebo, mas se existem é porque o mercado o pede…

Amândio Cupido

sábado, 14 de maio de 2016

Opinião: Aprendendo e Partilhando - Colheitas Tardias


Escolhi recentemente um vinho destes para acompanhar uma sobremesa num jantar, por mim organizado, com prova cega. Apesar de saber da curiosa falta de hábito em Angola de acompanhar as sobremesas com vinho, necessariamente doce ao contrário do que por vezes se ouve, não deixei de ficar admirado por apenas duas ou três pessoas, uma delas não conta, era a minha mulher, terem detetado tratar-se de um Late Harvest ou, se quisermos, em português, Colheita Tardia. Eu disse curioso, mas na verdade é surpreendente sabendo o quanto as coisas doces são por aqui apreciadas, aliás não será por acaso só por aqui ter ouvido a expressão “está doce” querendo dizer que o momento está agradável.

Curiosas e bem ajustadas são também as palavras do crítico e sommelier australiano Matt Skinner, "os vinhos doces são um pouco como bateristas: tecnicamente brilhantes, mas muito frequentemente ofuscados pelo resto da banda".

Existem muitas formas de fazer estes vinhos, desde a sua forma mais simples, que é o de deixar passar o seu momento habitual de colher, daí o nome destes vinhos, e esperar que as uvas fiquem um bocado mais desidratadas e próximas daquilo que é uma uva passa. Estas uvas têm muito menos sumo e por isso a quantidade de açúcar em cada litro é muito superior ao normal e dariam origem, se todo o açúcar fosse transformado em álcool, a vinhos com graduações altíssimas. Não é isso que fazem e é por isso que estes vinhos são sempre doces. Quando, durante o processo de fermentação, o vinho atinge uma graduação entre os 8 e os 12 por cento de álcool, ela é usualmente interrompida. Poderá por vezes ter menos e outras vezes mais, mas não é muito usual. Não são por isso vinhos muito alcoólicos, como é o caso dos fortificados, sendo também por isso vinhos menos impactantes.

Existem outros vinhos que poderiam ser também considerados como Colheitas Tardias, de que falarei em outras crónicas, nesta irei apenas falar dos talvez mais interessantes vinhos deste género, os chamados vinhos “botrytizados”, uma palavra inventada para distinguir os vinhos afetados pelo fungo Botrytis Cinerea dos outros. É que este fungo, causador da podridão cinzenta em muitos vegetais e nas uvas também, se as atacar antes do tempo, pode em determinadas alturas dar origem à “Podridão Nobre”. Neste caso e apesar do aspeto deplorável das uvas, o resultado é um vinho único que pode atingir níveis de perfeição inalcançável para os colheitas tardias sem podridão nobre. A descoberta deste modo de fazer vinho é atribuída aos monges beneditinos que em 1755 habitavam o Schloss Johannisberg. O emissário que tinha ido obter a permissão para colher as uvas atrasou-se várias semanas. Quando voltou as uvas estavam quase todas podres. Os monges que já tinham ouvido falar, eventualmente experimentado, vinhos onde algumas uvas estavam afetadas pela podridão nobre resolveram ainda assim avançar para a produção do vinho. Foi assim feito oficialmente pela primeira vez um spätlese, significando colheita tardia e tornando-se uma das categorias nos vinhos de qualidade, dando origem a uma verdadeira revolução na forma como se faz vinho na Alemanha. Este processo foi sendo melhorado e exportado para outras regiões europeias com destaque para a França, Hungria e Áustria. Na Alemanha e já agora na Áustria mas com menos notoriedade, o vinho mais conceituado tem o sugestivo nome de Trockenbeerenauslese e podendo uma singela garrafinha de 375 ml custar algumas centenas de euros.

França é o país que continua a garantir a produção do que melhor se faz neste domínio, com destaque para a região de Sauternes, mas também para a região do Loire onde se fazem vinhos doces com a casta Chenin Blanc absolutamente deliciosos e com a vantagem de serem mais baratos por serem bem menos conhecidos. Mas foquemo-nos em Sauternes, uma sub-região de Bordéus, que tem como ícone o famoso Château d’Yquem e como guardas de elite nomes como Château Riussec, Château Climens, Château Coutet, Château La Tour-Blanche ou Château Doysi-Dubroca. Estes produtores têm usualmente o cuidado de apenas recolher os cachos das uvas completamente afetados pelo fungo. Se necessário mais de meia dúzia de passagens na vinha são efetuadas para o garantir. A casta Semillon, conhecida no Douro por Boal, é a mais utilizada na região, com mais de 80% dos vinhedos, até por ser a mais propensa a ser atacada pelo fungo, graças à sua fina pele, mas também a Sauvignon Blanc e a Muscadelle têm o seu papel importante no resultado final. Os melhores vinhos têm uma incrível capacidade de evolução em garrafa, ficando cada vez mais concentrados em aromas, sabor e açúcar. A sua elevada acidez impede estes vinhos de se tornarem enjoativos. 2001 foi o ano recente de melhor qualidade que tive a oportunidade de provar.

A Hungria tem em Tokaji, uma das mais antigas regiões do mundo, a produção de um dos melhores vinhos deste género designados por Tokaji Aszú, com o número de puttonyos a indicar o grau de doçura que o vinho terá, sendo que 3 é o mínimo e 6 o máximo. Antigamente, a cada 136 litros de vinho seco, eram adicionados baldes de 20 quilogramas, os puttonyos, de uvas afetadas pela podridão nobre. Atualmente existem intervalos bem definidos que cada classificação tem de respeitar. Os 3 Puttonyos, por exemplo têm de ter entre 60 e 90 gr/l de açúcar. Já o 6 Puttonyos terá de ter entre 150 e 180 gr/l de açúcar. Acima destes, em termos de açúcar residual e a ultrapassar os 200 gr/l, estão os Aszú Essencia, produzidos exclusivamente com uvas podres. As principais castas utilizadas são autóctones e têm os sugestivos nomes de Furmint e Hárslevelü. A minha experiência leva-me a preferir muitas vezes os 5 em detrimento dos mais doces e mais caros vinhos desta região, sendo que o número de anos que o vinho tem seja igualmente determinante, pois tal como com os vinhos de Suaternes, também estes vinhos possuem a sempre boa característica de evoluírem muito bem em garrafa.

Hildérico Coutinho (Escanção / Sommelier)

domingo, 24 de abril de 2016

Opinião: Aprendendo e Partilhando - O Douro




Aprendendo e Partilhando - O Douro

Escrevi recentemente para a Rede Angola um artigo sobre este assunto, mas como ainda continua a incomodar-me resolvi recuperá-lo e acrescentar mais uns pozinhos… O Douro é como todos os portugueses sabem, a região onde se faz o Vinho do Porto. No entanto isto é uma não verdade quando se trata de não portugueses. De uma forma geral eles desconhecem o berço do Vinho do Porto e mais espantados ficam quando se lhes diz que este vinho, na sua caminhada para o mercado exterior, onde sempre se vendeu a maioria, não pisa o solo do Porto. De facto, como bem explica o vídeo que podem assistir através do link AQUI, a gula do Bispo do Porto (não é de agora o apetite das igrejas pelos nossos bolsos…), empurrou para a, na altura, Vila de Gaia, os armazéns onde repousam, nalguns casos por muitas dezenas de anos, este glorioso néctar, que é conhecido segundo diz o meu pai, por Vinho Fino para os antigos, Vinho Tratado para a família, Vinho Licoroso para os amigos e por Vinho do Porto para os doutores… 

O trajeto era feito através de um rio turbulento, ainda não estava domesticado pelas diversas barragens que agora o contêm, em frágeis barcos conhecidos por Rabelos e deram origem a muitos acidentes com perdas por vezes dramáticas para a região, como foi o caso da morte do Barão de Forrester no Cachão da Valeira, na altura, um perigoso e estreito rápido. A vela não era muitas vezes suficiente para levar o barco pelo rio acima e tinham de ir homens para a margem e através de um cabo de nome sirga puxar o barco pelas zonas mais complicadas. Vida difícil e arriscada a destes homens que ajudaram a fazer o Douro.

O vídeo atrás referido desencadeou uma breve e pouco útil troca de galhardetes com um enólogo da região. Tudo porque resolvi fazer um pequeno comentário dizendo que estava muito bem não fora um pequeno erro ao dizer que o Douro é a mais antiga região demarcada de vinhos do mundo. Por este exemplo também se vê como um mito pode ser construído em pouco tempo. O que ainda me incomoda não é a tentativa vã de manter uma mentira é a intolerância e a raiva demonstrada. Pouco faltou para me chamar de traidor à pátria! O tal enólogo, que me escuso de identificar para não lhe dar publicidade gratuita, começa por reafirmar o que ela disse e eu corregi, como se tivesse ouvido mal, sugerindo-me uma segunda audição e falando em regulamentação. Fui ouvir e lá estava a menina a falar em demarcação e não em regulamentação. Respondi dizendo exatamente isso e identificando as duas regiões que em termos de demarcação, são mais antigas, Chianti na Itália e Tokaji na Hungria. Segundo ele, Chianti nem pensar e Tokaji é uma incerteza… Perguntei o porquê de Chianti estar fora desta discussão, já que quem o afirma, Jancis Robinson, é só a autora de alguns dos mais conceituados livros sobre enofilia e Master of Wine, o mais elevado galardão nesta matéria. 

Não obtive resposta a esta pergunta e não vale de todo estar a escalpelizar aqui esta discussão, mas vale a pena falar do que move estes pretensos defensores da pátria. Para eles, deve-se repetir esta mentira até à exaustão até que se torne verdadeira. Tudo vale para vender a região. Ora, o Douro não precisa de nada disso para ser, como é, uma das melhores regiões vinícolas do mundo. Não precisa que se diga uma mentira quando se pode dizer, sem medo de errar, que esta foi a primeira região regulamentada como são na sua essência as regiões hoje em dia. A qualidade do seu inimitável Vinho do Porto e mais recentemente dos seus vinhos tranquilos, brancos e tintos. Dos seus espumantes que muito devem a um angolano que por lá assentou arraiais, Celso Pereira de seu nome. Do recuperado Colheita Tardia, porventura mais conhecido por Late Harvest, pela mesma empresa (Real Companhia Velha) e pela mesma marca (Grandjó) que o tinha começado a fazer em 1925. A região que tem também o título de recordista no mundo em termos de castas utilizadas na produção dos seus vinhos, algumas das quais pouco mais se sabe que o seu nome tem muito para pesquisar, trabalhar e descobrir para que todo o seu potencial possa aparecer. Algo que eu prevejo não acontecer nem no próximo século. Além do mais, a mentira tem perna curta e se pensam que quem vai ao Douro não vai a Chianti ou a Tokaji, deixem-me desenganá-los, pois o enoturismo está cada vez mais na moda e já são muitos, os que como eu, escolhem locais para passar férias que além de serem agradáveis só por si, tenham também boa gastronomia e bons vinhos para descobrir. Não vai ser difícil para eles comparar as datas e ver quem está a mentir! Para o senhor enólogo que insiste nesta mentira por achar que está a fazer muito pelo Douro eu tenho que lhe dizer que se quer fazer alguma coisa pela região só tem de fazer melhores vinhos!

Hildérico Coutinho (Escanção / Sommelier)