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quinta-feira, 21 de março de 2019

O Rio Minho, a fronteira do grandioso Alv(b)ariñ(h)o

Abaixo do Rio Minho, está localizada Monção e Melgaço, uma sub-região incorporada na região dos Vinhos Verdes onde a casta Alvarinho tão bem se exprime, sobretudo, pela conjugação de factores únicos – como clima, casta, solo e o factor humano –, produzindo vinhos singulares e inimitáveis. Vinhos brancos cheios de frescura e mineralidade. Trata-se de um terroir que usufrui de um microclima continental, promovido por uma cintura de montanhas, que protege as vinhas dos ventos húmidos. Os solos de onde as uvas são oriundas (terras de aluvião mais próximas do rio, terraços fluviais, por vezes com pedra rolada, ou cotas mais altas, onde predomina o granito mais fino) e as decisões tomadas na adega, definem depois o perfil dos vinhos que pode oscilar entre a fruta tropical, ou o lado citrino.

Acima do Rio Minho, passando a fronteira, estamos a entrar nas Rias Baixas, onde a casta Albariño (tenho de a escrever mesmo assim) também se exprime de uma forma igualmente original, resultando também em vinhos repletos de identidade. As Rias Baixas são uma das grandes divisões geográficas do litoral da Galíza. As rías são um braço de mar que, como se fosse um vale, se adentra na costa. As rías da Galíza estão divididas em Rías Altas (aquelas que ficam ao norte do cabo de Finisterra) e Rías Bajas (ao sul do cabo). Ou se preferimos abaixo de Santiago de Compostela, para mais fácil localizarmos. Aqui a influência é totalmente marítima e a proximidade com o Oceano Atlântico (por vezes com vinhas a escassas centenas de metro do mar) contribuem para uma salinidade evidente e que confere aos vinhos uma tipicidade muito própria. São vinhos também com uma elevada acidez e muita, muita frescura.
Os Protagonistas

Quando pensamos em Alvarinho é incontornável destacar Anselmo Mendes, talvez o maior nome associado ao estudo da casta e que produz vinhos, com enorme qualidade há mais de 25 anos, logo seguido de Soalheiro, também um dos pioneiros nesta matéria, sendo hoje em dia um dos maiores produtores da região. Em volume, só ficam atrás de empresas agregadoras de viticultores locais, tais como a Adega de Monção, PROVAM ou Quintas de Melgaço – Fantástico como a casta se dá tão bem na região produzindo vinhos de volume, mas com qualidade inegável. Outros nomes, no entanto, merecem igual destaque, de menor dimensão, mas enorme qualidade, como a Quinta do Regueiro, ou mais recentemente, já neste milénio, o surgimento de expressões diferentes da casta com projetos refrescantes, tais como Valados de Melgaço, Vale dos Ares ou Quinta de Santiago, entre outros.
Atravessando a fronteira, talvez o nome mais conceituado e a trabalhar a casta Albariño há mais tempo seja o produtor Zarate. A Bodega Zarate, localizada em Pontevedra, foi um produtor pioneiro no Albariño remontando ao século passado, quando começou a produzir esta variedade. Inclusive, Ernesto Zarate criou o Festival Anual de Albarino da região de Cambados, em 1953, que hoje é um dos eventos mais interessantes no que toca à mostra de vinhos Albariño. Mas é em redor do Vale de Salnes que ficamos ainda mais impressionados com os vinhos produzidos – secos, com muita acidez e cheios de salinidade. A conhecer: Albamar, o nome provém da junção do sobrenome da família Alba com a proximidade das suas vinhas ao mar; Benito Santos, vinhas encostadas ao mar e finalmente Alberto Nanclares, um dos maiores magos a trabalhar a casta em Espanha. Todos estes produtores têm em comum a mínima intervenção possível na feitura dos vinhos, uvas de vinhas bastante antigas, algumas delas centenárias e a expressão salina e mineral do terroir. Haverá seguramente outros mais, mas estes em particular, encheram-me as medidas este ano.
Esteja de que lado estiver do Rio Minho, viva o Alvarinho! E o Albariño…!

Sérgio Lopes (in Revista Paixão pelo Vinho)

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Momentos á volta do vinho – O Leitão e as Bageiras, de improviso

Com a passagem na TV, há pouquíssimos dias, de uma peça dedicada à familia Bageiras, encabeçada por Mário Sérgio Alves Nuno, recupero um texto que escrevi para a revista Paixão pelo Vinho, onde Bageiras e Leitão do mugasa, foram os protagonistas desta minha memória. Já lá vão alguns anos, não me recordo da data exata, estava eu a vir de Lisboa para o Porto, nesse dia e a minha irmã estava deslocada em Abrantes, em trabalho, sem carro. Nesse mesmo dia, o meu cunhado fazia anos. Ainda não havia filhos… e, de repente lembrei-me, porque não fazermos um jantar e comemorar o seu aniversário com um belo leitão à Bairrada? Afinal de contas, íamos chegar ao Porto, ainda a tempo do jantar. E ficava a caminho… Toca a ligar para o Mugasa, restaurante situado na Anadia, mais propriamente em Fogueira (Sangalhos) e encomendar um leitão à maneira. A primeira parte, estava conseguida. Faltava agora o espumante para acompanhar o belo do leitão… Como vamos fazer? O primeiro nome que surgiu foi naturalmente Mário Sérgio Nuno – produtor bairradino e ali ao lado, também em Fogueira, ao qual liguei de imediato e pedi para me arranjar uma caixa do fabuloso espumante Quinta das Bageiras Grande Reserva Bruto Natural 2003. Tínhamos estado nas Bageiras há pouco tempo e provado esse fabuloso espumante! O Mário Sérgio disse logo: “não te preocupes, Sérgio, eu entrego-o no Mugasa e levas isso fresco para o Porto…”. Depois de apanhar a minha irmã, em Abrantes, lá seguimos, rumo ao Mugasa, enquanto no Porto, a minha miúda, se encarregava de providenciar o bolo de aniversário. Não queríamos que faltasse nada, neste aniversário de improviso.

Chegados ao Mugasa, a Dona Helena, lá nos mostrou o “bichinho”, pequeno como sempre e com excelente aspeto, acabadinho de sair do forno, superiormente assado pelas sábias mãos do Ricardo. Que maravilha! À nossa espera, estava também um balde de plástico, daqueles que levam banha de porco para assar o leitão. Em vez de banha, o balde continha camadas de gelo a cobrir as garrafas de espumante que o Mário Sérgio tinha entregue no restaurante. Que categoria!

Ainda houve tempo para a Dona Helena cortar superiormente o Leitão (não é cortado de qualquer maneira), enquanto nos explicava com o carinho e doçura que a caracterizam, como se faz. Lá seguimos viagem, eu, a minha irmã, o balde com as garrafas de espumante e o leitãozinho assado à moda da Bairrada, com um aroma inebriante a acompanhar-nos todo o caminho. Quanto ao jantar, ficou na memória de nós os quatro, em particular do meu cunhado, que até ao dia de hoje continua a dizer “foi o melhor leitão que comi e o melhor espumante que bebi. Que grande aniversário!”. Ah, e sem molho, pois o verdadeiro leitão, não precisa de molho a acompanhar. São estes momentos, que perduram nas nossas memórias, que nos apaixonam pelo vinho. Um brinde a momentos de felicidade e partilha!

Sérgio Lopes , in Revista Paixão Pelo Vinho

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Este país é (também e cada vez mais) de vinhos brancos

Durante muitos anos, Portugal foi um país de vinhos tintos, com pouca preocupação pelos métodos de vinificação, cuidado com as vinhas, etc., logo, resultando em vinhos de qualidade muito duvidosa. 

A partir dos anos 90, assistimos a uma verdadeira revolução em Portugal na forma cuidada, moderna e profissional de fazer vinho, transportando Portugal para um patamar de vinhos de qualidade inegável, sobretudo produzindo, tintos. Felizmente, nas duas últimas décadas e, sobretudo, nos últimos anos, temos assistido a um crescimento elevado de qualidade também nos vinhos brancos em Portugal, o que é excelente. Isto deve-se não só à aposta dos produtores nos tais métodos mais controlados de produção, mas sobretudo às castas que dispomos em Portugal, capazes de produzir brancos de enorme qualidade! França tem o Chardonnay ou o Sauvignon Blanc; Alemanha o Riesling, mas nós temos uvas como o Rabigato, Maria Gomes, Alvarinho, Encruzado ou Arinto, entre outras, que conferem uma identidade ao vinho de acordo com o local onde são plantadas. 
A Maria Gomes (ou Fernão Pires), é uma dessas castas que resulta em vinhos de características muito variadas, que espelham as condições locais chegando a parecer de castas diferentes. Mas é na Bairrada que atinge o seu esplendor sendo parte integrante dos grandes brancos de casas como Quinta das Bágeiras, ou Luís Pato, entre outras, brancos que aguentam o passar dos tempos de forma exemplar. O Rabigato, no Douro Superior, origina brancos minerais e muito crocantes em vinhos como D. Graça, Dona Berta ou Permitido, espelhando esse poder contido da casta. O Alvarinho, cuja região de origem, Monção e Melgaço, produz vinhos de aromas citrinos e tropicais, onde referências como Soalheiro, Regueiro ou os vinhos de Anselmo Mendes - Curtimenta, Expressões ou Muros de Melgaço, elevam a região dos vinhos verdes para uma dimensão mundial. E esta casta, o Alvarinho, começa a dar-se bem um pouco por todo o país, originando brancos soberbos, como o Poeira de Jorge Moreira, um branco duriense aclamado internacionalmente feito 100% de uvas Alvarinho! Ainda nos verdes, o pendor floral do Loureiro (Quinta do Ameal, Pequenos Rebentos VV) e o lado mais sério das castas Avesso ou Azal (Covela, Sem Igual), originam grandes vinhos brancos.
No Dão, o encruzado, origina brancos de classe, com notas florais e muita finesse, capazes de melhorar com os anos, quer passem por madeira ou não. São vinhos gastronómicos e de enorme prazer. Quinta dos Maias, Quinta das Marias, ou Fata, entre tantos outros, são obrigatórios à mesa e na nossa garrafeira. O Arinto, plantado um pouco por todo Portugal mas cujo expoente máximo ocorre em Bucelas, às portas de Lisboa. Confesso que esta casta me tem surpreendido em vinhos como Quinta da Murta ou Morgado Sta Catherina, pois quer com estágio em madeira ou não origina brancos com muita acidez e vertente citrina, que com o tempo desenvolve aromas terciários simplesmente deliciosos. E a Siria na Beira Interior que começa a entra na primeira liga do que melhor se faz em brancos...!

Definitivamente, Portugal é (também) um país de vinhos brancos, que devemos apreciar durante todo o ano! 

Sérgio Lopes
In Revista Paixão pelo Vinho

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Opinião: O prazo de validade do vinho

Possivelmente já se questionou porque é que o vinho não trás no seu rótulo um prazo de validade, uma vez que os alimentos embalados trazem todos uma data expressa. Realmente, com o vinho a questão é bem mais complexa, mas nada que não tenha uma explicação.Para se saber até quando um alimento ou uma bebida mantêm boas condições de consumo, as amostras desses produtos são enviadas para laboratório onde são realizadas análises que avaliam a velocidade e as condições que levam à sua deterioração. Essa avaliação é chamada de “teste de vida de prateleira” e é com base nela que se determina o prazo de validade. Mas então, como é que se fazem análises ao vinho quando sabemos que (nalguns casos) podem manter-se em condições de serem apreciados por muitos e longos anos? Uma vez dentro d7a garrafa, existem vários factores que influenciam o tempo que um vinho vai permanecer apto até ser apreciado. As diferentes intensidades da acção de factores físicos como a luz, temperatura e movimento (vibrações); e químicos, como a oxidação (alterações que ocorrem em contacto com o oxigénio) ou a redução (alterações que ocorrem na ausência do oxigénio) irão influenciar a evolução e/ou deterioração de cada vinho. Cada um deles vai reagir de forma diferente a essas influências e, por isso, não há como fazer com os vinhos o tal “teste de vida de prateleira”. 

Como a validade é uma informação obrigatória nos alimentos embalados e os vinhos evoluem de diferente maneira uns dos outros, dependendo da sua constituição e forma de armazenamento, os rótulos podem ostentar a informação “válido por tempo indeterminado” ou “consumir de preferência antes de…” sempre e desde que embalados em vasilhame de vidro. Embora este pormenor não se aplique, para já, na União Europeia. Neste caso, o risco de perda do produto por motivos de excessivo tempo de armazenamento é avaliado pelo consumidor e controlado pelos estabelecimentos da especialidade. Para orientar o consumidor, os produtores costumam indicar no contra-rótulo as condições ideais para prolongar a vida útil do vinho. Mas então, se o vinho não tem prazo de validade, porque é que se fala em tempo de guarda? Com base no facto de cada vinho evoluir de maneira diferente, o chamado tempo de guarda é uma estimativa que os produtores e especialistas sugerem para o limite de tempo até ao qual, possivelmente, o vinho manterá características dignas de serem apreciadas. Passado esse tempo, ele entrará em deterioração, mas sem nunca trazer riscos para a saúde. Porém, não existem garantias precisas para que essa estimativa se concretize, pois é impossível prever com exactidão como o vinho irá evoluir em garrafa, mesmo que esteja armazenado nas melhores condições. Por isso, o vinho é um produto que tem uma “estimativa de guarda” e não um “prazo de validade” Saúde…!
Fernando Sousa (www.global-satisfaction.com)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Velhos (alguns Vinhos) são os trapos!

Esta crónica vem a propósito de três vinhos que provei este ano e que desafiaram a passagem do tempo. Quem me conhece sabe que estou na fase dos brancos - jovens ou menos jovens, têm me dado enorme prazer e sobrepondo-se grandemente em consumo, desaparecendo a uma velocidade vertiginosa da minha garrafeira. São fases. Acho. Já tive a fase dos tintos e em particular dos "vinhos velhos", os quais ainda moram alguns na minha garrafeira. Mas cada vez estou mais convicto que um vinho tinto tem a sua idade ideal de consumo entre os 5 e 10 anos (em média) e os brancos entre 4 a 6 anos. Claro que há montes de variáveis nesta equação, mas regra geral encontramos, nesta média, os tintos mais prontos a beber e mais complexos - a dar mais prazer, e os brancos mais desafiantes e com deliciosas notas de evolução, sem, ambos perderem a frescura. 

Mas de quando em vez, surgem vinhos que desafiam a passagem do tempo e trocam as voltas a isto tudo. Ainda na passada 6ª feira tive o prazer de provar (de novo) um Frei João Tinto de 1966, vinho da Bairrada, 100% da casta Baga, que estava com uma juventude inquietante. Em prova cega ninguém atiraria para a década de 60... Seria um grande vinho ás cegas? provavelmente não, mas ao vermos a sua ainda jovialidade com mais de 50 anos a dançar no copo, impressiona qualquer um! Brutal. O outro vinho que me lembro ter bebido este ano e que me surpreendeu foi um Dão Pipas 1975 que abri no meu aniversário. Em magnum, comprado numa garrafeira onde esteve não muito bem acondicionado. O "bicho" estava "impec", outro vinho cheio  de vida e que impressionou quem o provou. Duas regiões, Bairrada e Dão que sobretudo, no século passado conseguiram criar vinhos com uma longevidade incrível.  E ainda hoje o conseguem fazer se quiserem, mas provavelmente o mercado não o permite e por isso não irão durar tantos anos (presumo). 

Para finalizar, deixo-vos o terceiro vinho, provado AQUI e que é produzido com uvas provenientes do Dão e da Bairrada, o Bussaco  Reservado 1960. Um vinho descomunal. Já para não falar no branco de 1958, que fica como o melhor vinho provado este ano. Pelo menos branco. Há vinhos do caraças! 

Sérgio Lopes

sábado, 9 de setembro de 2017

New Kids in Town

Estamos na época das vindimas, onde tudo se decide. Este ano iniciadas bem mais cedo do que o costume. Onde se preparam as colheitas habituais e as novidades. E é de novidades que quero falar, de produtores jovens e irreverentes que em 2017 se evidenciaram. Têm em comum o facto de serem produções pequenas, produzirem apenas um vinho e eu ter sido comprador assíduo (e gostar muito de cada um deles). São eles Hugo Mendes - HM Lisboa, Cosntantino Ramos - Zafirah e João Camizão - Sem Igual.


Hugo Mendes, enólogo da Quinta da Murta, com o seu primeiro vinho. Lisboa 2016 by Hugo Mendes, disponibilizado numa primeira fase, em venda direta antecipada pela net, a um preço mais baixo, de um total de 2300 garrafas numeradas. Trata-se da sua interpretação da região de Lisboa, um vinho branco com Arinto e Fernão Pires em partes iguais. De registo leve e fresco, muito fino, com uma acidez presente mas delicada a aportar uma certa finesse e complexidade ao vinho. Pouco álcool, 11,5º, o que é óptimo e um corpo médio a segurar todo o conjunto, bebe-se sem dar conta! Distinto, com um toque salino. Sempre a crescer em garrafa.


Zafirah 2016, o primeiro vinho de Constantino Ramos (enólogo de Anselmo Mendes). O propósito deste vinho é o de remontar às antigas tradições dos vinhos tintos produzidos na região de Monção. Sim, é um "verde tinto", produzido das castas típicas tintas da região com predominância de Alvarelhão, E o resultado é um vinho de cor violeta turva, pois não foi sujeito a qualquer filtração, para preservar todo o seu caracter. O aroma é fresco e frutado, mas de uma fruta vermelha bem fresca e pura (framboesa, morango). É, no entanto, na boca que deslumbra pela elegância e incrivel acidez que lhe aporta uma grande personalidade e versatilidade gastronómica. Termina longo e bem crocante a pedir novo copo. O facto de apresentar pouco mais do que 10º de alcool torna-o ainda mais viciante. (100 garrafas).


O projecto de João Camizão, 100 Igual (ou Sem Igual) está inserido no grupo Vinho Verde Young Projects. São 4 Jovens produtores que juntam esforços e pretendem demonstrar que a região dos vinhos verdes é uma região, sobretudo, de grandes brancos. O 100 Igual 2015 é feito de Azal e Arinto de Amarante e deslumbrou-me ao primeiro contacto. A linha condutora ou perfil é o de pouca exuberância, bastante acidez, e muito secos, com o corpo do Arinto e o "nervo" do Azal. Neste momento começa a mostrar-se em todo o seu esplendor, com um nariz contido mas cheio de complexidade, uma boca vibrante, frescura ácida e final bem prolongado. Nada de frutinhas enjoativas. Pelo contrário um branco de classe internacional, com um lado amanteigado que agora começa a aparecer a lembrar a "borgonha". Numa altura em que o 2016 começa a mostrar uma acidez desconcertante que faz prever poder vir a ser (mais)uma brilhante colheita...

E por isso, considero estes os "New Kids In Town" -  projectos diferentes, diferenciadores, com algum risco, mas que resultam em produtos de grande qualidade. Um brinde a eles ao som dos "Eagles"...



Sérgio Lopes

sábado, 20 de maio de 2017

O "Bag-in-Box" do Biqueirão...!

Recentemente, quando andava por São Domingos de Carmões, uma aldeia lindíssima, completamente preservada e que é obrigatório conhecer, percebi que estava perto da Carvoeira e, num impulso irresistível lá rumei em direcção à adega cooperatva local. A ideia era falar com o colega responsável pelos vinhos e tentar perceber por que razão os brancos da cooperativa são tão bons, mas principalmente aprovisionar-me do branco mais carismático do portefólio, o célebre BIQUEIRÂO. 

O colega Julião Batista disse-me que o principal segredo dos brancos da região eram as castas locais, dominadas pelo Fernão Pires e o Arinto, acrescentando que: "o clima é muito importante, pois estamos numa zona intermédia entre a influência atlântica de Torres Vedras e o clima mais quente e seco de Alenquer". Depois de provarmos um excelente Arinto e um Chardonnay, perguntei pelo meu vinho favorito desta adega - o BIQUEIRÂO - feito com Fernão Pires, Arinto e Sara Nova e que, por ser o vinho de entrada de gama da adega tem só 12,5% de álcool. Tive a sorte de ser presenteado com um "bag in box", que abri logo que cheguei a casa. 

Quando o deitei no copo tive alguma ansiedade, pois havia o risco de este ano de colheita não estar à altura dos que eu tinha provado anteriormente e que tanto entusiasmo me tinham causado. Porém, logo que o levei ao nariz percebi que não me iria decepcionar. Com uma jovialidade própria do vinho do ano feito com base no Fernão Pires, criava uma grande expectativa para a prova de boca. E quando o provei percebi logo o estilo inconfundível do Biqueirão da Cooperativa da Carvoeira. Estava igual a si próprio, num equilíbrio perfeito entre a frescura da acidez, o teor alcoólico sensato e o aroma de boca da casta dominante. O facto de ter "só" 12,5% de álcool será outro dos segredos deste vinho, pois com esta graduação o Fernão Pires não se torna enjoativo e o Arinto tem uma acidez notável. 

Um vinho que justifica uma ida à Carvoeira, pois para além do seu preço irrisório ainda reconfortamos a alma com uma paisagem deliciosa!

Professor Virgilio Loureiro

sábado, 13 de maio de 2017

A mágica colheita de 1990 no Dão

Estive estes dias em Terras de Penalva para preparar o lançamento das próximas novidades da prestigiada cooperativa local. Ao almoço, com o nosso Presidente e o enólogo António Pina, vivi mais uma experiência gratificante com um tinto do Dão, da colheita de 1990. Esta colheita é mágica para mim, pois, além de magnífica, foi a primeira em que me iniciei a fazer vinho a solo na minha região natal. Foi na Quinta das Maias e também na Quinta dos Roques, que viriam, ao longo de mais de uma década, a constituir-se como verdadeiros "baluartes" da região. Também foi nesse ano que começou a germinar a ideia de criar uma associação de vitivinicultores da região do Dão - que viria a ser conhecida por VINIDÃO - e que muito contribuiu para a revolução que se operou na região com o movimento dos vinhos de quinta do Dão. Por estas razões e muitas outras que poderiam ser invocadas, não resisti à tentação de propor ao meu Presidente que abríssemos uma garrafa da cooperativa que estava num expositor do restaurante onde fomos. Ele hesitou e perguntou se valeria a pena, pois era capaz de já não estar em condições. Ao olhar para a cor do vinho eu disse logo que o risco seria mínimo e, provavelmente, iria proporcionar exclamações de alegria e admiração. Abriu-se, pois, a dita garrafa, cujo rótulo assustaria qualquer mortal, mas cujo conteúdo o poria logo em sentido.


O nosso anfitrião percebeu que era um momento solene e caprichou no serviço, trazendo copos "especiais" com o logotipo da cooperativa e uma jarra para proceder à decantação. A primeira surpresa foi constatar a ausência de sedimento e a segunda perceber que a cor do vinho era ainda mais saudável do que o inicialmente previsto. Logo que se deitou nos copos foi com sofreguidão que todos os levámos ao nariz, para ver como estaria. O meu Presidente olhou de soslaio para mim com algumas dúvidas estampadas na cara, mas eu sosseguei-o logo: "Não se preocupe Senhor Clemente, cheira mal mas não é defeito, é feitio"! Era o chamado "pivete da garrafa", que faz lembrar o cheiro de canos velhos, fruto da quase total anaeorobiose em que o vinho se encontrva há mais de 15 anos. Passados poucos minutos o "pivete" desapareceu e surgiu a complexidade de um grande tinto do Dão em idade adulta. Todos nos entusiasmámos e não resistimos mais a levá-lo à boca. Estava como eu imaginava: elegantíssimo, na frescura da sua acidez e dos 12,5% de álcool ("bons velhos tempos"). A complexidade aromática era surpreendente e o final de boca triunfal. Até o "bacalhau podre" se eomocionou, proporcionando um repasto que perdurará na memória por muito tempo. Nem só as quintas do Dão produzem grandes vinhos. As cooperativas também, como o comprovou, mais uma vez, este brilhante vinho.

Há dias de sorte!

Professor Virgilio Loureiro

terça-feira, 2 de maio de 2017

Opinião: Brancofobia?

Na semana passada fui ao Dão e fui confrontado com a necessidade de se retomarem garrafas de vinho branco de 2015, que alguns clientes de restaurantes de Viseu acham que está velho! Disseram-me que é uma reacção frequente, logo que sabem que a nova colheita está para sair. Claro está que os reclamantes imputam a situação aos seus clientes, que só gostam de brancos jovens, clarinhos e muito frutados! Quando provei o vinho em causa achei que estava excelente e a entrar na idade adulta, fruto da complexidade que começava a ganhar com o estágio de garrafa. Reconheci o inconfundível estilo dos brancos do Dão, cujo lema é: "Quanto mais velhos melhores!" Achei que não se justificava a retoma das garrafas, mas logo me disseram que "O cliente tem sempre razão", acresecentando que a solução mais pragmática seria colocar o vinho em saldo, para não se correr o risco de ficar com alguns "monos" por vender: Lembrei-me, então, que várias cartas de vinhos de restaurantes da Capital do Dão têm a originalidade de começar pelos tintos (com uma lista imensa de marcas e preços), remetendo os brancos para o fim da lista (meia-dúzia de referências) para os clientes "esquisitos"! 

Perante os factos interrogo-me de quem será a culpa de tal situação e tenho de reconhecer que é, em primeiro lugar, dos produtores, que não conseguem explicar convenientemente o estilo dos seus vinhos aos consumidores...e aos donos dos restaurantes. Haverá, por certo, mais responsáveis, mas quem tem de escoar o vinho são os produtores...

Para esquecer o desgosto do mau trato que alguns dos melhores brancos do País sofrem na sua terra natal fui buscar uma garrafa de um branco do Dão de 2011 (para alguns estará certamente "morto") para me deliciar. Não era nenhum "Encruzado" fermentado em barricas novas de carvalho francês ou um "Reserva" especial feito com todos os cuidados. E, mesmo assim, estava fantástico. A cor já caminha no sentido do amarelo palha, o aroma é intenso, impossível de descrever e enigmático, preparando as papilas para a festa que vão ter logo que se leva à boca. À medida que se oxigenava no copo ficava melhor e eu interrogava-me: como é que há pessoas que não gostam disto? Será que quando se explica cuidadosamente um vinho destes a quem não o entende é tempo perdido? Já passei várias vezes por tal situação e algumas pessoas a quem expliquei este estilo de vinhos já me agradeceram a descoberta que lhes proporcionei e os horizontes que lhe abri. Os brancos do Dão, principalmente os que envelhecem bem (e são muitos) têm de passar a ser motivo de orgulho para toda a gente da região, nem que para tal tenham de ser provados lado a lado com os grandes brancos da Borgonha!

NOTA FINAL:
Nunca me esqueço do orgulho que tive quando jantei com um amigo americano num restaurante do centro histórico de Viseu, há anos atrás. Ele ficou verdadeiramente extasiado com a carta de vinhos do restaurante, pois tinha o preço de venda ao público e, também, o preço a que o dono do restaurante os tinha comprado. Ao fim de minutos a fotografia da carta estava no facebook dele e os enófilos da Califórnia encheram-no de comentários altamente elogiosos.

Professor Virgilio Loureiro

segunda-feira, 13 de março de 2017

Opinião: Uma nova Bairrada

A gastronomia da Bairrada, associada à restauração, nasce no início dos anos 40, do século XX. Desde então, centrou-se no Leitão Assado e, os últimos 70 anos, têm sido benfazejos para esta iguaria que deu fama e fortuna à região. Em todo este período assistimos ao nascimento de dezenas de restaurantes que todos os anos serviam, em travessas de alumínio, milhares de quilos dum produto gastronómico que é soberbo e, muitas vezes, tratado com algum desprezo. A arte de servir à mesa era também praticada por autodidactas que, começando na cozinha, iam ganhando estatuto, e, com o diploma da quarta classe debaixo do braço,, aprendiam os truques do serviço e, entre umas graçolas, lá iam servindo os clientes que ali estavam sobretudo pelo belo e reluzente bácorozinho.

E esta cruel realidade foi coexistindo com a região durante décadas sem que mais fosse exigido. Aliado à gastronomia, também os vinhos da Bairrada foram durante décadas tratados como mendigos, parentes pobres doutras regiões mais nobres e de melhor pedigree.

Há, no entanto, uma nova realidade a despontar timidamente e que promete revolucionar a gastronomia da região. E os vinhos parecem ser a alavanca que faltava para esta mudança que é, a todos os níveis desejável. Convenhamos, a Bairrada não é, nem pode ser, somente o Leitão. Encontrarmo-nos no centro do país, estamos dotados de óptimas acessibilidades rodoviárias e , do topo do Bussaco, avistamos um mar atlântico que nos permite usufruir do melhor pescado do Mundo. Nada nos pode limitar.

A somar às condições estruturais, possuímos hoje vinhos tecnicamente irrepreensíveis, oriundos dum terroir distinto que nos traz tintos, brancos, rosados, espumantes, abafados, licorosos, aguardentes, colheitas tardias, ou seja, uma imensidão de néctares que pedem notoriedade. E o melhor palco para actuarem tem necessariamente que passar pela restauração que, naturalmente, terá que se reinventar.

A reinvenção da Bairrada já se iniciou e os seus protagonistas, ainda com os receios naturais de quem está a sair da sua zona de conforto, assumem o risco de dar esses primeiros passos.

No dia 11 de Março, coube ao restaurante Pedro dos Leitões dar um passo firme na direcção desta nova Bairrada, ousando duplamente: saiu do seu core business, harmonizando uma gastronomia que privilegiou a terra e o mar com os vinhos oriundos dum Alentejo mais irreverente; e teve a ousadia de convidar 3 alunos da Escola de Hotelaria de Coimbra para coordenar e reger uma cozinha que carrega o pioneirismo. E foi uma aposta duplamente.

Em breve, um retrato minucioso do jantar vínico que aliou a nova cozinha do Pedro dos Leitões com os vinhos audazes de Tiago Cabaço Winery.

Miguel Ferreira (A Lei do Vinho)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Opinião: Os vinhos que os portugueses bebem?

O mote deste texto é inspirado num e-mail que recebi de uma agência de comunicação intitulado: "Vinhos Tintos do Alentejo: a escolha número um dos portugueses". O conteúdo remetia para um ranking da procura (supostamente) dos portugueses por bebidas, elaborado pelo KuantoKusta Supermercados, comparando preços de mais de 84 mil produtos de 11 supermercados. O resultado: 2 vinhos do Alentejo, o Encostas do Alqueva Tinto e o Guarda Rios Branco, ambos, claro está, vinhos de supermercado, completamente corriqueiros e muitas vezes com aquelas promoções "malucas" dos 70% de desconto...

Não acho importante identificar o vinho vencedor, quer branco, quer tinto - terá o seu valor com certeza, mas sim reprovar o texto enganador "Vinhos Tintos do Alentejo: a escolha número um dos portugueses". Eu sei que até é assim (O alentejo - que produz também grandes vinhos - é provavelmente a região preferida do consumidor de supermercado, pela rqp dos vinhos e facilidade de aquisição), mas não entendi o fundamento. E pior, perceber que se bebe muito mal em Portugal, quando há tantos e tantos bons vinhos por aí disponíveis, com identidade e a uma óptima relação qualidade-preço. E de várias regiões. Enfim.

Sérgio Lopes

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Opinião: O Dão no seu melhor, Quinta da Fata 1958

O terceiro quartel do século XX (1950-1975) foi sem dúvida uma época marcante, para o bem e para o mal, no panorama vínico nacional. Nesta época vivia-se uma espécie de “troica vínica”, ou seja, um sistema no qual o consumidor podia optar para realizar a compra dos vinhos para beber em casa. 

Por um lado, o vinho podia comprar-se a granel na tasca e havia tantas opções por onde escolher. Por outro lado, também podiam adquirir os vinhos engarrafados ou engarrafonados através das adegas cooperativas, criadas nesta altura, nas regiões mais produtivas. Por fim, havia ainda as empresas armazenistas (Real Companhia Velha, Caves S. João, Caves Aliança, entre outras), que detinham algumas das marcas mais cobiçados pelos enófilos de então e que ainda perduram nos dias de hoje: Grantom, Sidrô, Terras Altas, Meia Encosta, etc.

Sir Eurico Amaral (Foto by Marco Lourenço)
Era este o panorama vínico nacional no tempo em que o Dr. Eurico Amaral (pai) viajava com frequência pelas principais capitais vínicas europeias com o intuito de provar os vinhos mais famosos de então. Deste hábito, raro e inacessível para o comum dos portugueses seus contemporâneos, surge a constatação pessoal de uma premissa quase irreal: o Dão possuía o melhor vinho do mundo. E quantos mais vinhos estrangeiros provava mais ficava convencido dessa afirmação.

Com o passar dos anos, um desígnio ia fermentando na cuba dos seus sonhos: a criação de um vinho de quinta com as uvas provenientes das suas vinhas em Vilar Seco. Estávamos então na década de 50!

E se bem o pensou, melhor o fez. O Dr. Eurico Amaral (pai) contou com a ajuda do Engenheiro Vilhena para em conjunto recorrerem às velhas técnicas dos Dão, ou seja, misturar as castas tintas tradicionais: Baga, Touriga Nacional e Jaen entre outras, com algumas das castas brancas nos tradicionais lagares de granito Beirão. 

O resultado foi um vinho tinto de cor aberta, tradicional na altura, mas nunca foi lançado para o mercado já que o pai do projeto começou a apresentar problemas de saúde e acabou por vender a quase totalidade da colheita de 1958. Sim, leu bem. 1958.

Hoje em dia os afortunados que provam este vinho raro, o Quinta da Fata 1958, constatam a sua frescura, equilíbrio, elegância, acidez e final longo. Um vinho de classe mundial.

Afinal, o Dr. Eurico Amaral (pai) tinha razão.

Paulo Pimenta (Wine & Stuff)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Vinhos de Altitude - O Conceito

Nos últimos anos temos vindo a assistir ao lançamento de alguns vinhos no mercado nacional que assumem, com maior ou menor intensidade uma diferença marcante: a altitude a que as cepas se encontram. Aparentemente, a ideia pode parecer algo confusa e de difícil demonstração, uma vez que as cinco maiores elevações do nosso país: Pico (2350 m), Estrela (2000 m), Ruivo (1862 m.), Torres (1851 m.) e Areeiro (1818 m.) estão distribuídas pelo território continental e insular e as respetivas denominações de origem, quando existem, produzem vinhos muito diferentes entre si.

No entanto, o conceito de vinho de altitude não é rígido e anda longe de estar definitivamente definido. A discussão sobre a definição do conceito não é recente mas o tema tem vindo a ser alvo de muita atenção, tanto nacional como internacional, para dar resposta a uma pergunta aparentemente simples.


O que é um vinho de altitude?

Uma das dificuldades é apontar uma cota a partir da qual estamos em presença de um vinho de altitude, bastará uma colina ou apenas poderão ser consideradas aqueles cujas cepas se encontram a mais de 2000 ou 3000 metros de altitude, tal como as que existem em Colomé na zona de Salta, Argentina ou no Monte Etna na Sicília. 

Ao longo dos anos, os enólogos que produziam vinhos em regiões mais altas aperceberam-se que tinham sido confrontados com condições muito particulares de luz (maior intensidade e radiação ultravioleta), temperatura (grandes amplitudes térmicas), ar (menor percentagem de oxigénio e de dióxido de carbono) e de maturação (níveis mais elevados de taninos e antocianos). Essas diferenças, conjugadas com as caraterísticas geológicas, originariam vinhos mais frescos e com uma acidez mais elevada.

A temática revestiu-se de tanto interesse que no início do milénio foi organizado, na Califórnia, o primeiro simpósio internacional dedicado ao tema da viticultura em altitude. Neste evento, o climatologista, Greg Jones, explicou a diferença entre relevo relativo (as diferença de altitude num ponto baixo e num ponto alto de uma colina) e relevo absoluto (diferença de altitude desde o nível das aguas do mar). Para Jones, o relevo relativo têm influência real sobre o clima e condições meteorológicas, assim para as vinhas também terá. No entanto, os encepamentos que se encontram a uma maior altitude, quando comparadas com outras ao nível do mar, apresentam diferenças significativas no clima e nas condições meteorológicas. 

No nosso país a temática também tem sido discutida. Em 2014 ocorreu um “workshop” sobre vinhos de altitude em Vila Nova de Tazem. Os oradores foram unanimes em assumir que esse fator também tem grande influência nas vinhas nacionais. No entanto, a noção apresentada revestiu-se de alguma hibridez, mesclando os conceitos de relevo relativo e absoluto, ou seja, estamos perante um vinho de altitude quando esse fator for capaz de introduzir diferenciação e tiver influência real no produto final.

Depois de clarificarmos o conceito sobre vinhos de altitude, chegou a altura de escolher os vinhos e o local para a prova cega. Mas isso ficará para outro post...

Paulo Pimenta (Wine & Stuff)

sábado, 31 de dezembro de 2016

Melhores vinhos provados 2016 | por Sérgio Lopes

Passado o Natal, onde suspeito que se abriram grandes vinhos a acompanhar a ceia Natalicia, em família, eis que estamos na reta final do ano. E na sequência do que fizemos para as escolhas de vinhos para o Natal, voltamos a lançar o desafio aos nossos enófilos apaixonados para seleccionarem, desta feita,  os melhores vinhos provados no ano 2016. Os vinhos de mesa, generosos e bolhinhas que mais impressionaram os sentidos. Alguns são muito difíceis de encontrar, outros nem tanto, mas uma coisa é certa, são todos grandes, grandes vinhos em qualquer parte do mundo. Aqui ficam as minhas escolhas:

2016 foi um ano em que provei (e bebi) tanta coisa boa... muitos vinhos portugueses de enorme qualidade e a preços nada "pornográficos". Foi também o ano em que bebi mais vinhos brancos e que pela primeira vez tenho na minha garrafeira mais garrafas de brancos do que de tintos. Por outro lado, apaixonei-me por vinhos mais antigos, adquirindo diversos vinhos em leilões e garrafeiras, novamente com destaque para os brancos, (curiosamente ou  não) a darem melhor prova que a maior parte dos tintos. Foi por isso impossivel escolher um só vinho, para esta selecção.


Brancos: Se houve região que me tivesse impressionado este ano foi Bucelas com os seus Arintos: Myrtus 2008, Quinta da Murta Clássico 2012, Morgado Santa Catherina 2012, Bucelas da Regência 2004. Brancos com ou sem madeira a rondar os 10€ para guardar e beber com enorme prazer. Alvarinhos: Anselmo Mendes Expressões e Curtimenta, Regueiro, Valados de Melgaço, apenas para mencionar alguns. Do Douro Superior "fartei-me" de beber Permitido 2015, um fabuloso branco mineral do Márcio Lopes. Também do Douro, o projeto Mãos (reserva branco e o códega de larinho) e por exemplo o Aneto grande reserva do Francisco Montenegro são exemplos de brancos superiores. Da Bairrada, o Vinhas Velhas da Niepoort... que maravilha de elegância e personalidade. Mas é do Dão que destaco um dos vinhos mais impressionantes que provei este ano: Porta dos Cavaleiros 1979. Provei outros "igualmente antigos" como o Bons Ares 2001 ou Quinta de Camarate 1999, em excelente forma e a darem enorme prazer, mas não com a garra e a forma deste vinho branco que apresenta maior idade do que eu. E... custa apenas 10€ nas Caves São João!


Tintos: estou um pouco saturado dos vinhos com baunilhas e cacaus provenientes do estágio em madeira. Ou de tintos demasiado extraídos e alcoólicos. Procuro num vinho identidade, frescura e autenticidade. E provavelmente encontro mais facilmente o que procuro no Dão e na Bairrada - vinhos frescos e elegantes, mas com corpo. Assim, destaco os Vinhas Velhas e Vinha Barrosa do Luis Pato, o Avô Fausto da Quinta das Bageiras ou os garrafeiras 2011 da Casa de Saima e 2009 de Sidónio de Sousa, por exemplo. Bagas deliciosas, entre o clássico e o moderno. Do Dão, bebi um Quinta dos Roques Touriga Nacional 1999 sublime e um Quinta da Bica Vinhas Velhas 2007 delicioso, entre tantos outros. Mas o meu destaque vai seguramente para (de novo) um vinho das Caves São João, o Frei João Reserva 1963. Não foi o "melhor" vinho que bebi este ano, ou seja, o que mais me deu prazer. Mas foi certamente o que mais me impressionou pela jovialidade apresentada para um vinho com mais de 50 anos...!


Espumantes: Bolhinhas foi "a nossa praia" em 2016. Tantos e tão bons espumantes provados de diversas regiões: Desde a Távora Varosa com os sempre competentes Murganheira ou Terras do Demo e o notável Hehn; De Alijó os magnificos espumantes de Celso Pereira, os Vértice, confirmação de excelência, tantas vezes referenciados pelos nossos winelovers. Depois, um pouco por todo o país se fazem espumantes de qualidade, embora ainda se possa afirmar que estamos numa fase de adolescência no que toca à maturidade desta bebida. Mas é na Bairrada que mais e melhores espumantes se consolidaram. Desde logo através do projeto Baga@Bairrada numa promoção de espumantes da região, feitos apenas com a casta Baga. Neste momento já são 10 referências. Desta região destaco Quinta dos Abibes e Kompassus, mas também o ano em que Mário Sérgio lançou o sempre delicioso Quinta das Bageiras Grande Reserva Bruto Natural 2011. Não é todos os anos que temos o privilégio de o beber. Mas em 2016 destaco uma casa na Bairrada que cresceu em qualidade e afirmação: As Caves do Solar de São Domingos. Começando pelo single-estate Quinta de S. Lourenço bruto 2007, passando pelos Velha Reserva da casa dos quais tive o privilégio de provar o 1999, 2003, 2004, 2005 e 2011. E se o 2011 está muito bom, destaco claramente o São Domingos Velha Reserva Bruto 2003 como o melhor que provei desta referência: Um espumante com mais de 10 anos de cave, cheio de comlpexidade e sabor, fino e "kicking ass" a muitos, mas mesmo muitos "Champagne". Bravo.

Generosos: Seleccionei um Vinho do Porto Branco com mais de 40 anos de média de idades da Vista Alegre. Já é difícil encontrar blends de tawnies de 40 anos. Ora brancos com estas características ainda mais dificil é. E quando o encontramos e o provamos temos uma explosão de frescura e complexidade, simplesmente abismais. Destaco igualmente, este ano, os Late Harvest do Monte da Ravasqueira e do Aneto. Dois colheitas tardias que me encheram as medidas. Finalmente, menção aos vinhos DON PX de Toro Albala. Tratam-se de vinhos de sobremesa, feitos pelo processo da uva desidratada que depois ficam anos e anos a envelhecer em carvalho americano (O Don PX 1965, por exemplo, esteve quase 50 anos em barrica antes de ser engarrafado). O resultado é uma concentração de boca abismal. Vinhos para provar com um "conta-gotas", impróprios para diabéticos e totalmente "fora do baralho".

Sérgio Lopes

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Melhores vinhos provados 2016 | por Paulo Pimenta

Passado o Natal, onde suspeito que se abriram grandes vinhos a acompanhar a ceia Natalicia, em família, eis que estamos na reta final do ano. E na sequência do que fizemos para as escolhas de vinhos para o Natal, voltamos a lançar o desafio aos nossos enófilos apaixonados para seleccionarem, desta feita,  os melhores vinhos provados no ano 2016. Os vinhos de mesa, generosos e bolhinhas que mais impressionaram os sentidos. Alguns são muito difíceis de encontrar, outros nem tanto, mas uma coisa é certa, são todos grandes, grandes vinhos em qualquer parte do mundo. Aqui ficam as escolhas de Paulo Pimenta (Wine & Stuff):


A minha escolha em espumantes recaiu em dois exemplares, Douro e Bairrada, cheios de personalidade e capazes de se bateram com o que melhor se faz por esse mundo fora. O prolongado estágio a que foram submetidos confere-lhes muita complexidade, a frescura e acidez que revelam são excelentes companhias para a mesa: Quinta dos Abibes Sublime 2010 (PVP 28€) e Vértice Gouveio 2007 (PVP 25€). 

Nas últimas duas décadas, o aumento da qualidade que os vinhos brancos nacionais têm vindo a apresentar é inegável. O uso contido da barrica, a expressão do local e da casta têm vindo a contribuir para essa melhoria. 

Foto: Miguel Ferreira (A Lei do Vinho)
Ao longo deste ano provei brancos que facilmente podiam estar no lugar mais alto do pódio. Podia sugerir o D. Graça Vinhas Antigas Reserva 2009, o Quinta da Passarela Villa Oliveira 2011, o Quinta das Bágeiras Garrafeira 2004 ou ainda o Vale D. Maria Vinha de Martim 2015 pela capacidade de expressarem de uma forma marcante o “terroir” e as castas de onde provêm. No entanto, aquele que mais me surpreendeu foi o Caves S. João 96 anos de História (PVP 60€). Um vinho feito em 1983 a partir da casta Chardonnay que na Bairrada está plantada desde o século XIX. Um exemplar com múltiplas camadas de sabores e aromas que me deixou francamente de joelhos. Um hino à região.

A enologia nacional atravessa um momento excecional, nunca houve uma tão grande proliferação de enólogos no panorama vínico nacional e isso é também notório na qualidade dos vinhos tintos apresentados. No entanto, é bom lembrar que nas últimas duas décadas do final do século passado, quando se iniciou a revolução vínica nacional, também já se produziam excelentes vinhos de categoria mundial. A minha escolha denota isso mesmo.

Muito embora tenhamos assistido a mais um lançamento de um mito, o Barca Velha, desta vez de 2008, o meu favorito continua a ser o Barca Velha 1991 que tive oportunidade de provar numa prova recente. Ainda dessa década, o D’Avillez Garrafeira 1995 deslumbra qualquer um pelo conjunto harmonioso e complexo. Um vinho composto por um lote de Trincadeira, Aragonês e Tinta Francesa que, apesar dos anos, ainda denota alguma fruta. Este foi também um ano no qual assistimos ao lançamento de um vinho absolutamente imponente, o Casa de Santar Nobre 2013 (PVP 60€). O aroma frutado, terroso, especiado, seco, muito intenso e com taninos bem polidos fazem dele um vinho que ninguém deve perder. Ainda do Dão, destaco o Quinta da Pellada Carrocel Late Release 2011, um vinho que só sai para o mercado em anos em que a Touriga Nacional atinge níveis de exceção. Nesta edição, as notas de frutos do bosque e de flores são discretas, mas a mineralidade, estrutura e acidez reveladas denotam um vinho cheio de elegância e sedução. 

Muito embora os vinhos anteriores se tenham evidenciado de uma forma superior, nenhum deles atingiu o patamar do Kompassus Baga Coleção Privada 1991 (PVP 500€). É um vinho monumental, cheio de profundidade e elegância. Apesar dos seus 25 anos aparenta muito menos e viverá muitos mais. 300 garrafas de uma Baga para beber e chorar por mais. 

Por fim, gostaria de destacar um vinho que foi feito no ano em que Thomas George Shaw publicou a obra “Wine, the Vine and the cellar”. Nesse ano, Ernest Cockburn, classificou o vinho do Porto como um dos melhores de sempre. Foi também nesse ano, durante a primavera, que a filoxera marcou presença pela primeira vez na zona de Gouvinhas. 


De lá para cá, o vinho Barbeito Boal 1863, já presenciou o nascimento e a morte da alguns Reis portugueses, a implantação da república, a passagem das diferentes ditaduras nacionais, o 25 de Abril e muito provavelmente ultrapassará a vida de todos aqueles que neste momento estão a ler este texto. É um pensamento avassalador, o vinho também.

Paulo Pimenta

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Melhores vinhos provados 2016 | por Amândio Cupido

Passado o Natal, onde suspeito que se abriram grandes vinhos a acompanhar a ceia Natalicia, em família, eis que estamos na reta final do ano. E na sequência do que fizemos para as escolhas de vinhos para o Natal, voltamos a lançar o desafio aos nossos enófilos apaixonados para seleccionarem, desta feita,  os melhores vinhos provados no ano 2016. Os vinhos de mesa, generosos e bolhinhas que mais impressionaram os sentidos. Alguns são muito difíceis de encontrar, outros nem tanto, mas uma coisa é certa, são todos grandes, grandes vinhos em qualquer parte do mundo. Aqui ficam as escolhas de Amândio Cupido (Garficopo):

Branco - Casa de Saima 1995

Um branco da Bairrada com mais de vinte anos, cheio de vida, a demonstrar a capacidade de evolução destes vinhos. Não se encontra facilmente, mas é um vinho de prova obrigatória.


Tinto - Casa Ferreirinha Reserva Especial 1986


Um ícone do Douro que apenas sai para o mercado em anos excecionais e quando não sai Barca Velha. Com o tempo, alguns Reserva Especial deixam-nos a pensar que deviam ser Barca Velha. Vantagem? O preço... Precisa de cuidados especiais e bons copos, mas impressiona pela frescura e garra que denota ao fim de trinta anos. (PVP 129€)


Fortificado - Dalva Porto Tawnie + de 40 anos


É difícil exprimir o prazer que dá beber um tawnie com esta idade. Ao contrario dos rubies (nomeadamente os Vintages) estes vinhos são loteados de forma a manter o mesmo perfil quando saem para o mercado. E este é fantástico. (PVP 80€)


Bolhas - Gosset Grand Millesimé 2000

Um Champagne com dezasseis anos, em excelente forma e com capacidade para viver mais uns anos em garrafa. Há melhores formas de acabar um bom jantar? Talvez, mas esta é uma delas.

Amândio Cupido

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Melhores vinhos provados 2016 | por Francisco Monteiro

Passado o Natal, onde suspeito que se abriram grandes vinhos a acompanhar a ceia Natalicia, em família, eis que estamos na reta final do ano. E na sequência do que fizemos para as escolhas de vinhos para o Natal, voltamos a lançar o desafio aos nossos enófilos apaixonados para seleccionarem, desta feita,  os melhores vinhos provados no ano 2016. Os vinhos de mesa, generosos e bolhinhas que mais impressionaram os sentidos. Alguns são muito difíceis de encontrar, outros nem tanto, mas uma coisa é certa, são todos grandes, grandes vinhos em qualquer parte do mundo. Aqui ficam as escolhas de Francisco Monteiro (Wine Lover):


Branco - Primus 2014 (Dão)- proveniente das vinhas velhas da Quinta da Pellada este feito com uma "mescla" de castas (cerca de 19) mas com dominância do Encruzado, Cercial, Bical e Verdelho, mostra-se muito aromático com um nariz fantástico uma concentração de fruta que nos leva pelas nuvens....é um branco muito rico, polido, cheio, untuoso e de uma elegância fantástica. Se o paraíso existe isto anda lá perto! (Garage Wines +-32€)


Tinto - Dos muitos vinhos que tive a felicidade de provar ao longo do ano houve um tinto que me encheu as medidas pela sua "mostra" de ADN, carácter, "descomplexidade" e de prazer absoluto, daqueles em que dizemos já não há mais?! Esse foi o M.O.B. Lote 3 Dão 2014, vinho resultante do "ataque" dos Durienses Jorge Moreira, Xito Olazabal e Jorge Serodio Borges que na zona da Serra da Estrela usaram 3 vinhas e 3 castas touriga nacional, jaen e alfrocheiro para fazer este belo vinho a um preço convidativo( cerca de 9€)e por isso mesmo a grande surpresa para mim. Façam mais disto!


Fortificado - Magalhaes Vintage 2004, localizado no vale de Pinhão a Quinta do Silval presenteia-nos com este vinho "fora do baralho" que faz com que os apreciadores de Tawnys envelhecidos e Colheitas como eu se rendam completamente por este estilo que não vai a estágio em madeira mas que nos "sufoca" com uma fruta vermelha majestosa é uma frescura mágica! Além do mais tem um preço que não é nada habitual neste tipo de vinho: 25€ na Garage Wines.

Espumante - Caves do Solar São Domingos - Lopo de Freitas Bruto 2011, uma referencia absoluta a nível dos espumosos nacionais, este de homenagem Lopo de Freitas feito com Cerceal (70%) e Chardonnay(30%), traduz-se num vinho elegante com umas notas minerais e limonadas muito bem integradas uma mousse cheia mas elegante e uma tosta muito equilibrada. É um daqueles espumantes que é mais seguro do que alguns "champanhes" que por aí andam....(+-15€ Onwine)

Francisco Monteiro

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Melhores vinhos provados 2016 | por Carlos Ramos

Passado o Natal, onde suspeito que se abriram grandes vinhos a acompanhar a ceia Natalicia, em família, eis que estamos na reta final do ano. E na sequência do que fizemos para as escolhas de vinhos para o Natal, voltamos a lançar o desafio aos nossos enófilos apaixonados para seleccionarem, desta feita,  os melhores vinhos provados no ano 2016. Os vinhos de mesa, generosos e bolhinhas que mais impressionaram os sentidos. Alguns são muito difíceis de encontrar, outros nem tanto, mas uma coisa é certa, são todos grandes, grandes vinhos em qualquer parte do mundo. Aqui ficam as escolhas de Carlos Ramos (Cegos Por Provas):

2016 foi um ano cheio de provas e de grandes vinhos. Tantos e, alguns, tão bons, que se torna dificílimo eleger o melhor em cada categoria. Mesmo assim, vou tentar (não vou conseguir eleger apenas um, obviamente):


Espumante: Vértice Gouveio 2007 (PVP: 25€), Talvez o melhor espumante nacional, acompanhado de perto pelo seu irmão, o Vértice Pinot Noir 2006. Cheio de vida, mas de bolha pequena, sem agredir, com notas de maçã e citrinos, a mousse é perfeita e o final longo.


Branco: Teixuga 2013 (Dão - 30€), Quinta das Maias Barcelo 2015 (Dão - 10€) e Viúva Quintas 2014 (Bucelas - 12€) – O 1º (100% encruzado) é um vinho de enorme potencial, ainda com alguma madeira a mais, mas já bastante integrada; tem vindo a evoluir e ameaça tornar-se numa das referências nacionais; notas de fumo casadas com alguma fruta branca, bela acidez, grande dimensão e complexidade. Os 2º (da casta Bacelo) e 3º (da casta Arinto) foram das maiores surpresas do ano; dois vinhos a preços bem acessíveis para a qualidade que têm; frescura e acidez a rodos que nos fazem sempre querer continuar a provar. Curiosamente, tratam-se de 3 brancos monocastas!


Tinto: VZ 15 Gerações 2013 (PVP 45€) e Quinta da Pellada Carrocel 2011 (PVP 60€) – Estes são dois vinhos extraordinários! Um do Douro, uma edição limitada de 1000 garrafas, numeradas, de um vinho feito a partir de lotes escolhidos por Cristiano van Zeller e os seus filhos, com a mão de enologia de Joana Pinhão, um vinho cheio de poder e músculo, com fruta madura de qualidade, taninos firmes e domados, de grande volume e longo final. O outro do Dão, de Sir Álvaro de Castro, mais elegante e fresco, mas bastante complexo e com grande estrutura; um vinho enorme!


Fortificado: Ramos Pinto Vintage 1924 (PVP 960€), Quinta da Devesa +40 Anos (PVP 100€) e MBV Boal 1863 (Colecção Particular - Barbeito) – O 1º, juntamente com o 1927, também da Ramos Pinto, foi provavelmente o melhor Vintage que alguma vez provei; é quase impossível explicar tamanha complexidade que vai mudando a cada minuto que passa… podemos estar horas de copo em riste a tentar descobrir novas sensações; é absolutamente fantástico! O 2º é o meu “40 Anos” (a média do lote tem bem mais que isso) favorito; frutos secos e passas com um vinagrinho ligeiro a temperar e um final a não acabar. O 3º… não existe! Ou melhor, existe e de que maneira! Vai existir sempre na memória de quem teve a sorte de o provar; este vinho prova (como se isso fosse necessário) que os Madeira são indestructíveis; caramelo, passas, enorme estrutura, volume descomunal e um final de boca que dura… para sempre!


Destilado: Caves de São João Aguardente Velhissima 94 Anos de História 1965 (PVP 250€)– De linda cor topázio, esta maravilha da destilação tem notas de baunilha, frutos secos, fruta exótica e especiarias; é de uma macieza e de um aveludado impressionantes e persiste, persiste, persiste…


Que venha 2017, com pelo menos tanta coisa boa para provar!

Carlos Ramos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Melhores vinhos provados 2016 | por Marco Lourenço

Passado o Natal, onde suspeito que se abriram grandes vinhos a acompanhar a ceia Natalicia, em família, eis que estamos na reta final do ano. E na sequência do que fizemos para as escolhas de vinhos para o Natal, voltamos a lançar o desafio aos nossos enófilos apaixonados para seleccionarem, desta feita,  os melhores vinhos provados no ano 2016. Os vinhos de mesa, generosos e bolhinhas que mais impressionaram os sentidos. Alguns são muito difíceis de encontrar, outros nem tanto, mas uma coisa é certa, são todos grandes, grandes vinhos em qualquer parte do mundo. Aqui ficam as escolhas de Marco Lourenço (Cegos Por Provas):



Destaques deste ano... nos brancos, vamos por partes: o Tempo 2015 do Anselmo Mendes que ainda não saiu mas que tive a oportunidade de o provar por duas vezes, já. Após uma prova em que se provou quase tudo o que o Anselmo Mendes já fez (incluindo Alvarinhos antigos), este vinho conseguiu deixar a sala em silêncio, pois é algo de muito diferente, excêntrico e sedutor. é um vinho absolutamente notável; o Soalheiro 2001 que já saiu há muito tempo e na garrafa que se abriu estava colossal mostrando a longevidade da brilhante uva Alvarinho; e finalmente num vinho que me apanhou de surpresa, pela forma simples e directa com que se bebe, fazendo-me gostar mais e mais desta região, Lisboa (principalmente em brancos): o Vale da Capucha Branco 2013 (PVP 10,50€),  um vinho com tudo muito bem composto, na melhor forma possível: o equilíbrio geral conseguido no blend, a largura de boca, a acidez firme, e aquele toque calcário muito subtil que aparece em todos os vinhos dali. e tudo isto de um trago, conseguido de modo muito simples e imediato. E ficaram muitos bons Douro, Dão e Bairrada fora desta lista, pelo que irei ali rezar alguns terços de joelhos e já volto... 


Tintos: do ano 2011 saíram coisas extraordinárias, e nas casas onde isso já é “hábito” o resultado foi o que seria de esperar – vinhos que começam já a dar provas excepcionais, mas que o tempo tratará de aperfeiçoar ainda mais. De entre outros exemplos, posso aqui referir o Abandonado 2011 (Alves de Sousa - PVP 105€) ou o Quinta das Bageiras Garrafeira 2011 (Mário Sérgio - PVP 25€). Optei contudo, por destacar o Dão de António Madeira - a Centenária 2013 (PVP 45€), proveniente de uma vinha com 50 anos salva do abandono, depois de não ter sido podada durante 3 anos. Um vinho muito especial. Alguns Bagas mais antigos estiveram igualmente brilhantes, mas houve uma garrafa em particular que sobressaiu, de um Conde de Cantanhede Reserva 1997

Espumantes: na prova proporcionada pelo Paulo Pimenta estiveram alguns dos melhores espumantes e champanhes que já provei. O Billecart-Salmon Brut 2002, o Louis Roederer Cristal 2006 ou o Pol Roger Sir Winston Churchill 2004 (talvez por esta ordem). Mas o “nosso” espumante Vértice Pinot Noir (PVP 50€) continua a ser uma referência obrigatória, a um preço também ele mais de acordo com a nossa economia, sem deixar de estar à altura de qualquer momento que assim o exija. 


Generosos: tendo eu faltado à singular prova da Barbeito onde se provou, entre outros, o extraordinário Boal de 1863, ficará a minha escolha neste capítulo pelo não menos especial Porto Vintage 1924 da Ramos Pinto (PVP 960€), ou como transformar qualquer pouquinho que nos chega à boca numa panóplia infindável de sensações e sabores, exóticos e desconhecidos, que perduram depois por muitas horas. Um milagre, portanto.

Marco Lourenço


sábado, 17 de dezembro de 2016

The Italian Specialist Suggests... Vinhos para o Natal

Espumante Casa Senhorial de Reguengo Velha Reserva 2002 (Verdes) - Uma boa demonstração do imenso potencial das castas verdes. Trajadura, Loureiro e Batoca inteligentemente "assemblé" para um espumante de grande elegância e interessante complexidade.


Branco Permitido 2015 (Douro Superior) - Como um fato... Clássico, de grande classe, sem pormenores requintados. Um vinho fresco e equilibrado, elegante e polido. Uma sinfonia harmónica de aromas. Óptimo para acompanhar comida ou só tertúlias. O defeito: uma garrafa não basta.

Tinto Herdade do Gamito 2007 (Alentejo) -  O primeiro vinho que comprei 15 dias depois da minha chegada a Portugal, durante uma visita em território alentejano. Apesar de procurar principalmente vinhos feitos com castas nativas, este blend de Syrah, Alicante Bouschet, Merlot e Aragones impressionou-me mesmo porque no resultado faltavam os elementos que menos gosto. Era complexo com uma boa estutura e os taninos a dizer-me "esquece a garrafa uns anitos". Chegou a hora para uma segunda prova!



Quinta do Zimbro,  Garrafeira Particular Vinho Fino 10 anos 2000. -  Nao é Natal, tanto aqui em Portugal como em Italia, para mim, para a minha família e os amigos sem este sublime néctar que não teme o confronto com os melhores Porto. Grande bouquet de aromas, ligeiramente untuoso e fumado, o perfeito parceiro para uma tarde ou noite de festa à volta da mesa.



NOTA: Marco FW Giorgetti é um italiano a viver no norte de Portugal. Wine lover confesso, gosta dos prazeres da boa gastronomia aliadas a um belo vinho.